Brasil adota novas regras para tratamento da tireoide em gestantes

Brasil adota novas regras para tratamento da tireoide em gestantes
Fonte da imagem: Agência Brasil


A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) atualizaram as recomendações para o diagnóstico e tratamento de alterações da tireoide durante a gestação. A principal mudança é que gestantes com anticorpos anti-TPO positivos, mas com função tireoidiana normal, não devem mais usar levotiroxina como prevenção, pois estudos recentes não mostraram benefício na redução de abortamento ou parto prematuro.

A nova diretriz brasileira se baseia no documento da American Thyroid Association (ATA), publicado em junho, que substitui as orientações de 2017. O anúncio foi feito durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, no Rio de Janeiro, no painel “Disfunção tireoidiana na gestação: o manejo que evita danos irreversíveis”.

Segundo o subcoordenador do Departamento de Tireoide da SBEM, Cleo Mesa Júnior, a presença do anticorpo indica apenas predisposição à disfunção. “Se os hormônios TSH e T4 livre estão normais, a mulher é considerada eutireoidiana e não há benefício comprovado em usar levotiroxina apenas por ter o anticorpo positivo”, explicou. Apesar disso, a função da glândula deve ser monitorada, pois há maior risco de desenvolver hipotireoidismo ao longo da gestação.

Para mulheres que já tinham hipotireoidismo antes de engravidar, a orientação permanece: aumentar a dose habitual do hormônio em cerca de 30% assim que a gravidez for confirmada.

O Brasil mantém o rastreamento universal de todas as gestantes, desde o início da gravidez, ao contrário da diretriz da ATA, que sugere triagem seletiva para mulheres com fatores de risco. O médico defende a estratégia brasileira: “O rastreamento seletivo pode deixar de identificar algumas mulheres que apresentam alteração da tireoide, mas não possuem os fatores de risco considerados na triagem”.

Outra atualização diz respeito ao hipotireoidismo subclínico, quando o TSH está elevado, mas o T4 livre permanece normal. O tratamento com levotiroxina agora é recomendado apenas se o TSH estiver entre 4,0 e 10 mUI/L e a gestação estiver no primeiro trimestre, até a 12ª semana, período em que o feto depende mais do hormônio materno. Se o problema for identificado depois, a orientação é apenas acompanhar a função tireoidiana, exceto se o TSH for superior a 10 mUI/L.

A diretriz internacional também sugere repetir o exame de TSH após uma a três semanas antes de decidir tratar, mas as sociedades brasileiras recomendam não aguardar esse intervalo, para não perder a janela de oportunidade terapêutica.

Em relação aos fatores de risco para rastreamento seletivo, quando não for possível testar todas as gestantes, a nova diretriz prioriza mulheres com histórico de hipo ou hipertireoidismo, cirurgia ou tratamento prévio da tireoide, doenças autoimunes como diabetes tipo 1, histórico familiar de doença tireoidiana, infertilidade, dois ou mais abortamentos ou uso de medicamentos que interfiram na glândula. Idade materna, obesidade e número de gestações anteriores deixam de ser considerados fatores de risco isolados.

Sobre o iodo, a ATA recomenda suplementação antes da concepção, mas a diretriz brasileira sugere que ela seja individualizada, principalmente para mulheres com dietas restritivas, veganas, baixo consumo de sal iodado ou má absorção, com doses de 100 a 150 µg por dia.

Análise WeekNews: A atualização das diretrizes reflete uma tendência da medicina baseada em evidências de evitar intervenções desnecessárias, priorizando o tratamento apenas para casos com benefício comprovado. A manutenção do rastreamento universal no Brasil, apesar da recomendação internacional de triagem seletiva, indica uma preocupação em não perder casos de disfunção tireoidiana, especialmente em um sistema de saúde com acesso desigual, onde a repetição de exames pode ser demorada. A mudança também reforça a importância do acompanhamento individualizado durante a gestação, equilibrando riscos e benefícios para a mãe e o feto.

Fonte: Agência Brasil.

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