Em resposta aos EUA, Brasil afirma que tarifaço de 25% prejudicaria empresas americanas e defende Pix e STF




Em resposta aos EUA, Brasil afirma que tarifaço de 25% prejudicaria empresas americanas e defende Pix e STF
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O governo brasileiro enviou nesta quarta-feira (1º) um documento de 29 páginas aos Estados Unidos rebatendo a proposta de tarifaço de 25% sobre produtos do Brasil, sugerida pelo Representante Comercial dos EUA (USTR). O Itamaraty, em resposta assinada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, argumenta que a medida prejudicaria as próprias empresas norte-americanas, impondo custos reais à economia dos EUA. O documento contesta ainda as acusações de que o Pix discrimina empresas americanas e defende as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) citadas pelo USTR.

O ministro Mauro Vieira lembrou que 43 empresas e associações comerciais americanas solicitaram a exclusão de produtos de quaisquer tarifas, enfatizando a ausência de substitutos nacionais e o risco de os custos serem repassados aos consumidores e indústrias dos EUA. “Os participantes do mercado esperam que uma ampla implementação de tarifas prejudique, em vez de promover, os interesses econômicos dos EUA”, diz o documento. O Brasil também argumenta que o tarifaço, caso adotado, não funcionará para reverter políticas brasileiras e que a ameaça foi politizada por autoridades dos EUA mirando as eleições de outubro no Brasil, como forma de interferir na escolha dos eleitores brasileiros.

U.S. President Donald Trump delivers remarks in the Memorial Amphitheater during a Memorial Day event at Arlington National Cemetery, Arlington, Virginia, U.S., May 25, 2026. REUTERS/Nathan Howard
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Publicado em junho, o relatório do USTR é resultado de uma investigação iniciada há um ano no governo de Donald Trump sobre supostas práticas “desleais” do Brasil no comércio, baseada na Seção 301 da legislação dos EUA. O documento norte-americano apontava o Pix como discriminatório, mas o Itamaraty rebateu lembrando que empresas como Google Pay Brasil e Visa atuam dentro do sistema. “Esses fatos contradizem diretamente a sugestão de que o Pix opera como um campeão nacional fechado do qual as empresas americanas são excluídas ou ao qual são submetidas em termos discriminatórios”, escreveu o governo. A resposta ainda citou que os EUA também desenvolveram uma infraestrutura pública de pagamentos, o FedNow, criado pelo Federal Reserve.

O ataque ao Pix por parte das autoridades estadunidenses é visto como uma reação ao mecanismo gratuito de pagamentos, que prejudicou empresas dos EUA como MasterCard, Visa e WhatsApp Pay, que cobram pelo mesmo serviço. O documento brasileiro também refutou as alegações sobre decisões do STF. O USTR usou decisões pontuais da Corte contra plataformas digitais sediadas nos EUA para sustentar a afirmação de que o Brasil estaria discriminando empresas norte-americanas. O Itamaraty considerou a alegação “totalmente infundada”, visto que o USTR sequer identifica ou analisa os fundamentos e o raciocínio articulados pelos juízes brasileiros ao ordenarem a restrição de conteúdo digital.

O ministro Mauro Vieira rebateu a afirmação de que as decisões do STF seriam “secretas”, destacando que a confidencialidade de processos judiciais é uma necessidade para manter a integridade das investigações. Segundo Vieira, o USTR não identificou qualquer norma na legislação brasileira que imponha restrições a plataformas estrangeiras ou de propriedade dos EUA. “Empresas que atuam em qualquer grande mercado estrangeiro podem ser obrigadas a cumprir as determinações legais internas e sofrer penalidades caso não o façam. Isso é uma consequência comum de operar sob a jurisdição de outro país soberano”, afirma o documento.

O governo brasileiro ainda refutou os argumentos usados para justificar o tarifaço envolvendo combate à corrupção, desmatamento ilegal, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol brasileiro e os acordos entre Brasil, México e Índia. O Brasil sustentou que os acordos comerciais com México e Índia foram negociados em conformidade com as regras do comércio global. “A Seção 301 não autoriza os Estados Unidos a tratar acordos legais preferenciais como ‘irrazoáveis’ simplesmente porque os Estados Unidos prefeririam não enfrentar a concorrência dos beneficiários desses acordos no mercado brasileiro”, diz o documento.

Mauro Vieira citou observações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para defender que o Brasil tem um robusto sistema de combate à corrupção. “As avaliações das organizações internacionais relevantes corroboram o histórico de aplicação da lei no Brasil e contradizem diretamente a caracterização de falha sistêmica feita pelo USTR”, afirma o relatório. Sobre o etanol, o USTR apontou que o declínio das exportações de etanol dos EUA para o Brasil e o acesso do etanol brasileiro ao mercado dos EUA seriam evidências de políticas que oneram o comércio americano. O governo brasileiro justificou que a tarifa sobre o etanol se aplica igualmente a todos os países que não se beneficiam de um acordo preferencial, não discriminando os EUA.

Em relação ao desmatamento ilegal, o Itamaraty lembrou que o atual governo vem aumentando os gastos com monitoramento e combate aos crimes ambientais, destacando que o país é reconhecido internacionalmente por uma legislação ambiental rígida. “O USTR reconhece expressamente que o Brasil possui um arcabouço legal para o combate ao desmatamento ilegal e reconhece que o Brasil adotou recentemente medidas para aprimorar a fiscalização, incluindo investimentos em tecnologia e outras medidas relacionadas à aplicação da lei”, diz o documento. A resposta oficial do Brasil ao USTR afirma que a tarifa proposta corre o risco de minar, em vez de incentivar, o diálogo entre os países, onerando uma relação bilateral de comércio e investimento importante para ambos os lados.

Fonte: Agência Brasil.

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