
Em Bom Jesus dos Perdões, município de cerca de 22 mil habitantes a aproximadamente 65 quilômetros do centro de São Paulo, a ausência de uma livraria terminou em 2016, quando o psicólogo Guilherme Moura e a também psicóloga Fernanda Miquelino abriram a Casa do Leitor. O espaço nasceu de uma operação virtual: Moura vendia livros para pagar a faculdade de psicologia e mantinha o estoque em uma garagem. Com a liberação da parte superior do imóvel, o casal decidiu criar uma loja física, já que a cidade não tinha nenhuma livraria.
A inauguração contou com a presença do professor Christian Dunker. Segundo Guilherme Moura, o evento foi um sucesso e mostrou que havia interesse na região por atividades culturais. Desde então, a Casa do Leitor passou a promover lançamentos com autores, festivais, feiras de discos de vinil, rodas de conversa com mulheres, ações voltadas a idosos de um asilo e sessões de filmes. Pelo espaço já passaram nomes como Marcelo Rubens Paiva, Juca Kfouri, Aline Bei, padre Júlio Lancellotti, Jessé de Souza, Pedro Bandeira e José Roberto Torero.
A programação também alcançou a educação municipal. De acordo com o secretário municipal de Educação, o professor Ricardo Augusto Pontes Moraes, em 2025 os projetos contemplaram 240 alunos do 5º ano de cinco escolas municipais. Segundo ele, após a participação, os estudantes relataram mais facilidade para compreender as histórias em razão do mecanismo utilizado para trabalhar a leitura, e as escolas destacaram a importância do espaço de leitura e do acesso proporcionado pela Casa do Leitor a alunos e professores.
Apesar da agenda preenchida até novembro, Guilherme Moura afirma que o projeto ainda enfrenta obstáculos. “Nossa dificuldade hoje é engajar a administração pública e fazer com que cada vez mais pessoas conheçam o espaço. A equipe é pequena, nos faltam recursos, mas sinto que fazemos muito dentro daquilo que nossas possibilidades atuais permitem”, diz. Ele também observa que a frequência varia entre os eventos e avalia que falta empenho do poder público no fomento do espaço.
Entre os frequentadores assíduos está Magda Machado Ribeiro Venancio, de 72 anos, doutora em psicologia da educação que vive há mais de 30 anos no município. “A Casa do Leitor trouxe novos ares para Perdões e tornou a cidade mais conhecida e atrativa para os que moram nas cidades próximas”, afirma. Ela diz acompanhar a iniciativa desde o início e admirar a programação e a persistência do casal. Outro frequentador é o jornalista Mario Casimiro Gonçalves, de 31 anos, morador de Atibaia, que costuma se deslocar até Bom Jesus dos Perdões para participar das atividades. “Eu vejo a Casa do Leitor como um local de diversão, resistência, onde são realizados encontros e há circulação de ideias”, comenta.
Análise WeekNews: A trajetória da Casa do Leitor indica que a oferta de programação cultural regular em um município sem livrarias até 2016 encontrou público tanto local quanto de cidades vizinhas, como Atibaia. O alcance relatado na rede municipal de ensino, com 240 alunos em 2025, sugere que o espaço passou a cumprir uma função que extrapola a venda de livros. Ao mesmo tempo, a dificuldade declarada para engajar o poder público e a limitação de equipe e recursos mostram que a sustentabilidade de iniciativas desse tipo segue dependente de esforço privado e de adesão comunitária.
Fonte: Agência Brasil.
