
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, na quinta queda consecutiva dos juros básicos da economia. A decisão, tomada por unanimidade, era esperada pelo mercado financeiro e ocorre em meio a um cenário externo incerto e ao início do fenômeno climático El Niño.
No comunicado que acompanhou a decisão, o Copom afirmou que o ambiente externo permanece incerto em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio e da incerteza sobre a política monetária em algumas economias avançadas. Segundo o colegiado, esse cenário exige cautela por parte de países emergentes em um ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.
A Selic havia ficado em 15% ao ano entre junho de 2025 e março deste ano, o maior nível em quase 20 anos. O Copom voltou a cortar os juros em abril, em um contexto de queda da inflação. O agravamento da guerra no Oriente Médio e o início do El Niño, no entanto, dificultam o trabalho da autoridade monetária.
A decisão foi tomada com o comitê desfalcado. O mandato dos diretores de Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes, e de Política Econômica, Diego Guillen, expirou no fim de 2025, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não encaminhou ao Congresso Nacional as indicações dos substitutos.
Inflação
A Selic é o principal instrumento do Banco Central para manter sob controle a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em agosto, o índice ficou negativo em 0,32%, o menor nível em quatro anos, beneficiado pelo bônus de Itaipu nas contas de luz. No acumulado de 12 meses, a inflação recuou para 4,22%, contra 4,44% em julho.
O preço dos alimentos também contribuiu para a queda, com recuo de 0,34% no mês passado. O início do El Niño, porém, deverá encarecer a comida nos próximos meses, o que representa um desafio adicional para a política monetária.
Desde janeiro de 2025 vigora o sistema de meta contínua, pelo qual a meta de inflação perseguida pelo BC, definida pelo Conselho Monetário Nacional, é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo — ou seja, limite inferior de 1,5% e superior de 4,5%. Nesse modelo, a meta é apurada mês a mês, considerando a inflação acumulada em 12 meses, e não mais restrita ao índice fechado de dezembro.
No último Relatório de Política Monetária, divulgado no fim de junho, o Banco Central elevou de 3,9% para 5,2% a previsão do IPCA em 2026, mas a estimativa será revista por causa da recente queda da inflação. A próxima edição do documento será divulgada no fim deste mês.
As previsões do mercado são menos pessimistas. De acordo com o boletim Focus, pesquisa semanal com instituições financeiras divulgada pelo BC, a inflação oficial deverá fechar o ano em 4,9%, acima do teto da meta. Antes do início da guerra no Oriente Médio, as estimativas estavam em 3,95%.
No comunicado, o Copom avaliou que o conjunto dos indicadores divulgados desde a última reunião mostra moderação gradual da atividade econômica, principalmente em setores mais cíclicos, embora ainda em patamar resiliente, e mercado de trabalho aquecido. Nas divulgações mais recentes, segundo o colegiado, a inflação cheia e a média das medidas subjacentes desaceleraram, situando-se abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, porém ainda acima da meta.
Crédito e crescimento
A redução da Selic barateia o crédito e estimula a produção e o consumo, mas enfraquece o controle da inflação. A taxa básica é usada nas negociações de títulos públicos no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve de referência para as demais taxas de juros da economia.
No último Relatório de Política Monetária, o Banco Central elevou para 2% a previsão de crescimento da economia em 2026. O mercado projeta expansão mais baixa: segundo a última edição do boletim Focus, os analistas econômicos preveem crescimento de 1,89% do PIB em 2026, ante estimativa de 1,98% há quatro semanas.
Análise WeekNews: A quinta queda consecutiva da Selic consolida um ciclo de afrouxamento monetário iniciado em abril, quando a inflação em desaceleração abriu espaço para o recuo dos juros. O movimento, no entanto, ocorre em um ambiente que o próprio Copom classifica como incerto, marcado pelos conflitos no Oriente Médio e pelo início do El Niño. A projeção do mercado para a inflação de 2026, de 4,9%, acima do teto da meta, sugere que o espaço para novos cortes pode ser limitado caso as pressões sobre os preços se confirmem, especialmente no setor de alimentos. A composição desfalcada do comitê, à espera de indicações para duas diretorias, acrescenta um elemento de atenção ao processo de decisão da política monetária nos próximos meses.
Fonte: Agência Brasil.
