
A vitória democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas em 2026, foi marcada pela ascensão de lideranças jovens, de minorias étnicas e religiosas e com discurso progressista. O resultado renova a imagem de um partido que saiu desgastado da derrota para Donald Trump em 2024, quando era fortemente associado às elites econômicas e criticado por um suposto abandono das pautas dos trabalhadores norte-americanos.
Com o pleito, o Partido Democrata elegeu senadores e deputados em estados e distritos onde perdeu sucessivas eleições nos últimos anos, como o Texas. Assim, tanto o Senado quanto a Câmara passaram a ser majoritariamente ocupados pela oposição a Trump, do Partido Republicano.
Entre os nomes de destaque está Keisha Lance Bottoms, primeira mulher negra da história dos EUA a ser eleita governadora, pela Geórgia. Em seu discurso, ela dedicou a vitória às pessoas sem acesso a serviços de saúde e de educação devido ao alto custo de vida no país. “Esta vitória é para o cuidador que não tem condições de arcar com despesas de saúde e precisa que a Geórgia finalmente amplie o Medicare”, afirmou.
Também foram eleitos Deb Haaland, primeira governadora indígena, pelo Novo México, e Chris Papas, primeiro senador abertamente homossexual, por New Hampshire. No Texas, James Talarico venceu a disputa ao Senado e derrotou os republicanos pela primeira vez em quase 40 anos no estado. A também texana Gina Hinojosa foi eleita a primeira governadora latina, após décadas de hegemonia republicana.
Com 37 anos, Talarico articula um discurso religioso com a defesa dos mais necessitados e da justiça social. Filho de pastor e seminarista presbiteriano, ele criticou a política anti-imigração de Trump, acusada de separar famílias, e a aprovação do projeto que tirou US$ 1 trilhão da saúde enquanto cortou impostos para os mais ricos. “O presidente dos EUA disse que eu insultei Jesus. Sabe o que insulta Jesus? Deixar os pobres sem assistência social enquanto corta impostos de bilionários”, declarou. Em evento de campanha, afirmou que “a única minoria que está destruindo os Estados Unidos é a dos bilionários”.
Outro nome de destaque foi Abdul El-Sayed, eleito pelo Michigan como o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira no Senado dos EUA. Ele fez campanha criticando os gastos do país com ajuda militar a Israel e, no discurso da vitória, criticou o lobby sionista que, segundo ele, teria gastado milhões de dólares para derrotá-lo no estado. No dia da eleição, Trump anunciou a suspensão de US$ 4 bilhões em ajuda militar a Israel, medida vista por alguns analistas como tentativa de reverter a tendência de votos em candidaturas críticas ao financiamento israelense.
Para o doutor em ciência política Juliano Machado Pires, a avaliação ruim do Partido Democrata em 2024 vinha da decepção com o governo de Barack Obama (2009-2017). “Com a crise dos bancos, em 2008, Obama salvou os bancos, mas não salvou a hipoteca da população. Uma parcela das pessoas se sentiu traída”, explicou.
A professora de relações internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina, destacou que o pleito elegeu um número expressivo de democratas de fora da elite da legenda. “São indivíduos que têm uma agenda muito mais progressista, em alguns casos até socialista, enfatizando melhores condições de vida para a classe trabalhadora, saúde universal e gratuita para todos”, comentou. Sobre Talarico, avaliou que ele resgata uma tradição abandonada pelo partido desde o governo de Bill Clinton (1993-2001). “Vinda de um estado como o Texas, é bastante emblemático. Talarico traz de volta a religião e o cristianismo para o âmbito do trabalhador local. É uma grande surpresa”, disse.
O professor de história da Universidade de Brown, James N. Green, apontou que a flexibilidade dos dirigentes partidários locais nos EUA para definir a política do estado contribuiu para a renovação. “A diversidade do Partido Democrata deu essa flexibilidade de candidatos diversos, que podiam atrair uma base da população, combinada com uma política horrível do governo de Trump, que incentivou muitas pessoas a romper com ele e apoiar os democratas”, avaliou.
Análise WeekNews: A renovação democrata nas Midterms combina perfis que ampliam a representação de grupos historicamente sub-representados no Congresso e nos governos estaduais com um discurso voltado à classe trabalhadora. Os resultados indicam que a legenda recuperou terreno em redutos republicanos, como o Texas, ao mesmo tempo em que nomes como Talarico e El-Sayed deslocam o debate econômico e religioso para pautas sociais. O movimento, porém, ocorre em um cenário de forte polarização, e a dimensão dessa virada será medida pela capacidade de o partido sustentar essa base diversificada nas próximas disputas.
Fonte: Agência Brasil.

