
Quase 40 anos após o maior acidente radiológico da história do Brasil, a tragédia familiar causada pelo césio-137 em Goiânia ganha um novo registro no curta-metragem “Lourdes e Leide”, do diretor Angelo Lima. Exibido na noite de segunda-feira (27) no Festival Bonito CineSur, no Mato Grosso do Sul, o documentário acompanha o cotidiano solitário de dona Lourdes, tomado pelas memórias da filha Leide, que morreu aos 6 anos de idade após ingerir partículas do material radioativo. A produção, filmada em 2025, volta a denunciar o sofrimento gerado pelo episódio e chega em meio a uma nova perda na família: nesta última semana, dona Lourdes perdeu outro filho, Lucimar das Neves Ferreira.
O acidente começou em 13 de setembro de 1987, quando os catadores de lixo Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves entraram no prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no centro de Goiânia. Eles encontraram um equipamento de radioterapia, removeram o lacre da cápsula e se depararam com um pó semelhante a sal de cozinha, que emitia um intenso brilho azul no escuro: era o césio-137. Sem saber do perigo, eles venderam o material para um ferro-velho de Devair Alves Ferreira, que também ficou encantado com a luminosidade e distribuiu a substância para familiares e amigos.
A substância radioativa chegou à casa de Lourdes e Leide depois que o irmão de Devair, Ivo Ferreira, levou um pouco da cápsula para a filha. Leide das Neves ingeriu as partículas de césio e morreu poucos dias depois, em 23 de setembro de 1987. Por causa da radiação que seu corpo ainda emitia, ela precisou ser enterrada em um caixão de chumbo de 700 quilos. Além dela, outras três pessoas morreram entre quatro e cinco semanas após a exposição. Wagner e Roberto, os catadores, foram as primeiras vítimas.
Agora, a família sofre mais uma perda. Lucimar das Neves Ferreira, que tinha 14 anos na época do acidente, morreu nesta última semana. Segundo o diretor Angelo Lima, Lucimar foi internado após o acidente e recebia uma pensão do Estado, mas começou a beber muito e desenvolveu um enfisema pulmonar violento. “Ela [Lourdes] está muito chocada”, contou Lima, bastante emocionado, em entrevista à Agência Brasil logo após a exibição do curta.
O presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), Marcelo Santos Neves, também se manifestou sobre a morte de Lucimar. Em vídeo publicado nas redes sociais da associação, Neves disse que a perda relembra os dias difíceis do acidente. “A gente se entristece porque, com essa perda, tudo relembra aqueles dias difíceis. Agora, a gente tem que dar o máximo de apoio possível, porque vai ser muito dolorido para ela [Lourdes], por mais que ela já esteja calejada com essas dores de perda da filha”, completou.
O diretor do curta não poupa críticas ao poder público. “Eu sempre culpo o Estado. Eu não vou culpar os catadores, nem vou culpar a família. Essa é uma tragédia que eles não tinham dimensão do que era. E alguma coisa precisa ser feita para reparar esses danos”, afirmou Lima. Para ele, a família de dona Lourdes já sofreu demais. “Essa é uma tragédia violenta. Essa família foi totalmente abalada. Naquela época, eles não podiam chegar na rua. As pessoas falavam: ‘olha aí o pessoal do Césio’ e trancavam as portas. Eles tiveram que se mudar várias vezes. Isso acaba com a vida de todo mundo. Destrói famílias”, ressaltou.
Além da exibição do documentário, o Festival Bonito CineSur promove uma pequena exposição de fotos que ajuda a contar a história do acidente. Entre as imagens, há fotos da pequena Leide e também do seu enterro. “No enterro da Leide, chegaram a jogar pedras”, contou o diretor. “Naquela época, eles sofreram coisas muito fortes assim.” Lima avalia que a tragédia “poderia acontecer com qualquer um” e que a sociedade brasileira precisaria estar mais preparada. “Eu acho que, em termos governamentais, nada mudou. As pessoas esqueceram disso rapidamente, porque quiseram esquecer rapidamente. E não tiveram humanidade”, disse.
Fonte: Agência Brasil.
