Dossiê aponta racismo estrutural na indústria do som e do audiovisual brasileiro


Pesquisadores identificaram padrões de racismo na indústria do som no Brasil, com desigualdades salariais, dificuldade de reconhecimento profissional e práticas técnicas que buscam “higienizar” o som de influências periféricas. As conclusões estão no dossiê A Cor do Som, lançado nesta semana, no início do Novembro Negro, por duas instituições privadas que atuam no combate ao racismo: a Semiótica Antirracista, focada em cursos sobre diversidade racial, e o Estúdio Nina, que conecta marcas ao público negro. O levantamento recebeu apoio da empresa Audiolivros.

O estudo foi construído a partir de entrevistas com 24 pessoas: 18 profissionais negros que atuam nas áreas técnica e criativa do audiovisual, quatro acadêmicos e duas personalidades engajadas no debate racial, cujos nomes não foram revelados. A pesquisa traz percepções dos entrevistados, sem dados quantitativos.

Entre as queixas relatadas por profissionais negros estão salários menores que os de brancos em funções equivalentes, contratações motivadas justamente pela aceitação de remunerações mais baixas, dificuldade de cobrar valores compatíveis com a própria qualificação, necessidade de trabalhar mais para demonstrar competência e falta de reconhecimento mesmo quando são responsáveis pelo desenvolvimento de projetos.

Um profissional da área criativa contou que acumulava funções como produção de palco, ligações telefônicas, edição e captação. Ao reivindicar remuneração compatível com o trabalho, foi demitido. “Segundo eles, não tinham condições de oferecer o salário de uma pessoa qualificada como eu. Então, eu fui desligado por e-mail e contrataram outra pessoa, que é uma influencer branca”, relembrou. Outro entrevistado relatou que, apesar de ter desenvolvido o projeto e ser quem mais trabalhava, era o menos ouvido. “Tinha que brigar muito para as pessoas entenderem que eu sabia do que eu estava falando”.

O dossiê também aponta que profissionais negros exercem mais trabalhos braçais do que funções criativas. “Os lugares pensantes, de tomada de decisão, de criação, permanecem sendo majoritariamente destinados a pessoas brancas”, afirma o texto. Um profissional do cinema reclamou: “Quando a gente começa no audiovisual, não nos é dada a oportunidade de contar histórias, então a gente, pragmaticamente, é colocado em funções técnicas. Eu fiz som, montagem, assistência de produção… Por que eu não podia ser produtor?”.

Na análise técnica do produto audiovisual, a pesquisa identifica que a produção de áudio no Brasil segue um paradigma de origem europeia, colonial e elitista, buscando “higienizar o som dos ruídos e interferências da rua, da praça, do povo”. Segundo o dossiê, operadores de som recebem uma cartilha com regras que apontam para um som o mais higienizado possível, o que descarta ruídos periféricos e marcas culturais afro-brasileiras. Para os autores, é preciso “desconstruir o mito da neutralidade técnica nas produções sonoras”.

A pesquisa também aponta a prevalência de uma norma padrão de linguagem que hierarquiza modos de falar, “reduzindo a pluralidade à indignidade do erro”. O estudo retoma o conceito de “Pretuguês”, da intelectual e ativista Lélia Gonzalez (1935-1994), definido como um modo de falar português marcado por elementos fonéticos e sintáticos de línguas africanas, frequentemente tratado como escárnio, a exemplo da troca do L pelo R em palavras como “probrema” ou da substituição do LH por I, como em “faia”.

Outro ponto identificado é o enquadramento racial dos profissionais. “Eu sempre fui chamado de negro a vida inteira, e isso também é uma forma de te aprisionar, porque você vira o negro, aquele negro único”, disse um entrevistado, que exemplificou: “Eu sou a pessoa negra, o jornalista negro, o escritor negro, o roteirista negro”. O estudo também critica a visão de que produções feitas por negros são “de nicho”. “Acham que tudo o que pessoas pretas falam só é escutado por pessoas pretas. Sempre é um nicho”, queixou-se um profissional.

Para os pesquisadores, o racismo sustenta a ideia tácita de que produções negras não são para o público geral, enquanto as produções brancas são destinadas a todos. “Esta lógica perversa é mais um efeito da ideologia que coloca o branco como universal”, escrevem. A equipe afirma que o “silenciamento é um dos mecanismos mais recorrentes do racismo” e considera o estudo fundamental para repensar narrativas, fluxos de trabalho e o paradigma que orienta a cadeia produtiva do áudio e do audiovisual no Brasil. O levantamento frisa que “não existe voz de preto nem voz de branco” e reforça que os timbres humanos são diversos.

Análise WeekNews: O dossiê reúne relatos de profissionais e não apresenta dados quantitativos, o que limita a dimensão estatística do problema, mas organiza queixas recorrentes em torno de salário, reconhecimento e acesso a funções criativas. Ao deslocar o debate para as escolhas técnicas da produção sonora, o estudo sugere que práticas tratadas como neutras podem reproduzir hierarquias raciais. O lançamento no início do Novembro Negro tende a ampliar a circulação dessas percepções em um setor que, segundo os próprios entrevistados, ainda concentra decisões e criação entre profissionais brancos.

Fonte: Agência Brasil.

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