
A dois meses das eleições de outubro, moradores de favelas do Rio de Janeiro ouvidos pela Agência Brasil apontam educação, mobilidade, cultura, saúde e participação social como prioridades para o próximo governo. A segurança, embora seja uma preocupação permanente, aparece como reflexo da ausência de ações nessas áreas.
O estado do Rio tem 12,8 milhões de eleitores aptos a votar. Desse total, 2,1 milhões vivem em uma das 1.724 favelas fluminenses, segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na capital, 1,3 milhão de pessoas moram em uma das 813 favelas, áreas com menos casas ligadas à rede de esgoto e água e menor cobertura de coleta de lixo.
A professora de serviço social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Eblin Farage, que coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Favelas e Espaços Populares (NEPFE), explica que essas regiões não são homogêneas. Os dados do IBGE mostram que a maioria dos moradores das favelas cariocas é negra: 21% são pessoas pretas e 49% pardas, enquanto os brancos são um em cada três moradores das comunidades.
Voto pela primeira vez
Moradora do Complexo do Alemão, na zona norte, Letícia Vitória Guimarães, de 16 anos, vai às urnas pela primeira vez em outubro. Integrante dos coletivos Criar e Mulheres em Ação e do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente, além de bolsista de um programa para jovens talentos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ela diz que considera perfis envolvidos com pautas negras, direitos humanos e diálogo com a população.
“Muitas vezes, [governantes] chegam com respostas prontas, sem saber o que queremos, como achamos melhor, então, precisa [ser alguém] disposto a ouvir”, afirmou.
A jovem também cita a mobilidade como prioridade. Segundo ela, não há ônibus que saia do Alemão ou de outras favelas da zona norte em direção à zona sul, o que dificulta o acesso ao lazer e a empregos. Letícia critica ainda os valores do programa Jovem Aprendiz, que não cobrem os custos com duas ou três passagens de ônibus e alimentação. “Os valores [de repasse] são baixos, hoje, R$ 20 não pagam nem uma quentinha”, disse.
Trabalho e renda
Da Rocinha, maior favela do Brasil, com 72 mil habitantes, a jornalista Isabelle Rodrigues Trindade, de 26 anos, formada há dois anos pela PUC-Rio, preocupa-se com a falta de oportunidades profissionais. Ela já trabalhou no portal de notícias da Rocinha, o Fala Roça, e atualmente atua como agente cultural em um bairro próximo.
Para Isabelle, os moradores também observam as propostas para emprego e renda, e o fim da escala 6×1 é uma prioridade. “É muito difícil conciliar trabalho, família e estudo com essa rotina, principalmente, por causa dos grandes deslocamentos, caso das pessoas que moram em favelas”, analisou.
Educação e qualificação
A oferta de mais cursos técnicos e profissionalizantes e de projetos esportivos vai definir o voto de João*, jovem de 26 anos que vive de bicos, é pai de duas meninas e mora em uma grande favela da zona norte. “Aqui, o curso começa, a gente até inicia, mas acaba antes de a gente concluir”, criticou, ao falar sobre iniciativas encerradas antes de formarem as turmas. Ele também cobra propostas para crianças com deficiência e autismo, citando a necessidade de creches com mais mediadores nas salas.
Estudante de história na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Sara Sant’anna, de 24 anos, criada na Favela do Rodo, na zona oeste, cobra a instalação de centros culturais na região e de polos de educação superior. “Campo Grande é um dos maiores bairros do Brasil e a oferta de cursos superiores públicos aqui é limitada. A faculdade mais perto é longe, em Seropédica, a uma hora”, disse a educadora, que também é diretora da Casa Frutos, dedicada a cursinhos pré-vestibular na Cidade de Deus.
Racismo e saúde
No Morro da Providência, uma das primeiras favelas do país, projetos sociais da organização Galeria Providência evidenciam como o racismo se tornou barreira na conquista de melhores condições de vida, a começar pela saúde. “Um debate que avança, em meio a uma população afetada pelo baixo nível educacional e pelas fake news [que confundem e desinformam], é o da saúde”, contou o pesquisador e fundador da organização, Hugo Oliveira.
O gestor cultural cita ainda as abordagens policiais, que se traduzem mais em violência contra jovens negros do que brancos, e o racismo ambiental, refletido no acesso a moradias mais precárias ou vulneráveis a eventos climáticos extremos. “Esses assuntos vêm sendo colocados de forma superficial nas campanhas”, avaliou o doutor em comunicação pela UFRJ. Para Oliveira, as eleições são um momento de olhar para lideranças locais comprometidas com os territórios. “A tua cabeça pensa onde o teu pé pisa. Ninguém sabe melhor dos nossos territórios do que nós mesmos”, afirmou.
Análise WeekNews: Os relatos colhidos em diferentes favelas do Rio convergem para demandas de serviços básicos e mobilidade, e não para a segurança como tema isolado. O conjunto de depoimentos sugere que parte do eleitorado dessas áreas tende a avaliar candidatos pela capacidade de responder a carências concretas de urbanização, educação e transporte, temas que, segundo os próprios moradores, aparecem de forma superficial nas campanhas. A dimensão do eleitorado envolvido — 2,1 milhões de pessoas no estado — indica que essas pautas têm peso eleitoral relevante, ainda que o material não permita medir intenção de voto.
Fonte: Agência Brasil.


