
Das 360 regiões turísticas catalogadas pelo Mapa do Turismo Brasileiro, 301 foram atingidas por eventos climáticos extremos entre 2020 e 2025. O total corresponde a 83,6% das áreas mapeadas pela ferramenta do Ministério do Turismo, segundo o estudo “Eventos climáticos extremos no turismo brasileiro: o confronto entre os impactos e as (re)ações”, publicado por pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB).
Para a pesquisadora Jaqueline Gil, uma das autoras do trabalho, os números indicam que o turismo nacional já opera sob alta vulnerabilidade climática. “Deixar de tratar esses eventos como algo excepcional e reconhecer esta nova realidade, planejar e agir para minimizar seus efeitos é o mínimo que precisamos fazer, e cada região exigirá um conjunto de ações adaptadas à sua realidade”, afirma.
Os pesquisadores cruzaram os dados do Mapa do Turismo Brasileiro com o Banco de Dados de Eventos de Emergência do Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres, referente ao período de 1990 a 2025. O levantamento foi complementado pela análise de quase 100 atas de reuniões do Conselho Nacional de Turismo e de mais 30 documentos de políticas públicas sobre o tema.
A partir desse material, o estudo constatou que a ocorrência de eventos climáticos extremos cresceu nas últimas quatro décadas sem que o setor de turismo tenha acompanhado esse movimento com ações de prevenção e adaptação. Ao mesmo tempo, o fluxo de visitantes está em expansão: o país alcançou 9 milhões de turistas estrangeiros em 2025, número recorde, após retomar em 2024 o patamar da década anterior, de cerca de 6 milhões de visitantes vindos de outros países.
A vice-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta), Fernanda Dornelles, diz que a pressão das mudanças climáticas já é sentida pelos operadores, que se adaptam conforme suas capacidades, mas avalia que as respostas ainda são insuficientes. “Não podemos depender de respostas isoladas e paliativas, e a resposta à nova realidade deve ser a articulação entre conhecimento, boas práticas e diálogo entre empresas, o poder público e as comunidades locais”, declara.
Fernanda acrescenta que o turismo funciona em um ecossistema amplo, que precisa ser adaptado como um todo, da gestão dos territórios às políticas de conservação e proteção de quem preserva os ambientes, passando pelas cadeias de geração de renda e desenvolvimento ligadas às visitações. “É uma agenda que depende de ciência, governança e participação do setor privado, na qual o turismo pode deixar de ser apenas um usuário da natureza para se tornar parte da estratégia de conservação e resiliência dos destinos”, conclui.
Análise WeekNews: o cruzamento entre a expansão do fluxo turístico e o avanço dos eventos climáticos extremos sugere que o setor enfrenta uma pressão dupla. O crescimento recorde de visitantes estrangeiros amplia a exposição de destinos a fenômenos como secas, chuvas intensas e temperaturas extremas, enquanto o estudo aponta que as ações de prevenção e adaptação não acompanharam esse aumento ao longo das últimas quatro décadas. Na prática, a concentração de 83,6% das regiões turísticas afetadas entre 2020 e 2025 reforça que o planejamento por região, defendido pelos pesquisadores e pela representante do setor, tende a ser um dos pontos centrais para conciliar a atividade turística com a proteção dos territórios.
Fonte: Agência Brasil.
