
A Bacia Amazônica abriga mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce, o que representa cerca de 15% de todas as espécies conhecidas no planeta. Desse total, aproximadamente dois terços são exclusivos da região. Os números constam da quarta edição do relatório “Peixes Esquecidos da Amazônia”, coordenado pela The Nature Conservancy (TNC) com a participação de mais de 50 especialistas de 30 organizações.
Para os autores, a Amazônia é uma das últimas grandes bacias hidrográficas do mundo onde ainda é possível evitar perda de biodiversidade em larga escala e preservar rios conectados. A cientista da TNC e autora principal do estudo, Fernanda Silva, afirma que, globalmente, os esforços de conservação têm se concentrado na restauração de ecossistemas após danos já ocorridos. Na Amazônia, porém, haveria a chance de proteger um sistema de água doce de importância global enquanto ele ainda funciona plenamente.
O relatório combina evidências científicas com conhecimento ecológico tradicional e destaca o papel dos peixes na manutenção dos ecossistemas, na segurança alimentar, nas culturas e nas economias locais. Espécies como tambaquis, pacus e matrinxãs, por exemplo, alimentam-se de frutos em áreas de floresta alagada e dispersam sementes por grandes distâncias, enquanto outras transportam nutrientes entre ambientes aquáticos e terrestres. A redução dessas populações pode afetar em cadeia a vegetação e animais como botos, ariranhas e aves.
A conectividade dos rios é apontada como elemento central. A dourada, uma das espécies analisadas, realiza a mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada, percorrendo mais de 11 mil quilômetros entre as cabeceiras próximas aos Andes e o estuário do Amazonas. Quando barragens interrompem essas rotas, os impactos são significativos. No rio Madeira, por exemplo, as barragens bloquearam antigas rotas migratórias da dourada, contribuindo para a redução dos estoques pesqueiros e o desaparecimento de uma atividade pesqueira histórica na região da Cachoeira do Teotônio.
Apesar da riqueza, o estudo aponta lacunas no conhecimento sobre as espécies. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reúne 144 espécies ameaçadas na região, enquanto outras 334 estão classificadas como “Dados Insuficientes”. A falta de monitoramento e de cooperação entre os países da bacia pode significar riscos maiores do que os conhecidos.
As ameaças atuam de forma combinada: hidrelétricas, desmatamento, poluição e pesca excessiva podem fragmentar habitats, alterar os regimes de vazão e deteriorar a qualidade da água. As mudanças climáticas tendem a agravar o cenário, com projeções indicando redução de mais de 40% na descarga anual dos rios em algumas regiões, como as cabeceiras do Madeira. Secas prolongadas podem prejudicar a reprodução e a migração, reduzir o oxigênio e concentrar contaminantes. Nos Andes, o aumento das temperaturas ameaça espécies endêmicas adaptadas a águas frias.
O garimpo acrescenta outra pressão. Segundo o estudo, a mineração não industrial de ouro responde por 83% das emissões de mercúrio causadas por atividades humanas na América do Sul. O contaminante se acumula na cadeia alimentar, e o consumo de pescado é a principal via de exposição humana ao mercúrio na Amazônia.
A conservação dos rios tem impacto direto nas populações ribeirinhas. Em algumas comunidades remotas, o consumo de pescado ultrapassa 600 gramas por pessoa por dia, sendo uma das fontes de proteína animal mais acessíveis para famílias de baixa renda. A pesca movimenta a economia regional, embora grande parte seja artesanal ou de subsistência e não apareça nas estatísticas oficiais. Pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente, e a pesca ornamental exporta dezenas de milhões de exemplares por ano, sustentando milhares de famílias, com participação relevante das mulheres.
O estudo também ressalta o conhecimento de povos indígenas e comunidades tradicionais. A coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA), Fany Kuiru Castro, afirma que, para os povos indígenas, os peixes fazem parte da identidade, dos sistemas alimentares e da relação com os rios vivos. Ela defende que estratégias de conservação reconheçam os direitos territoriais indígenas, respeitem os conhecimentos ancestrais e fortaleçam a liderança indígena na proteção das águas.
O relatório identificou pelo menos 155 iniciativas de manejo comunitário da pesca no Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia, abrangendo quase 13 milhões de hectares e envolvendo mais de 1,2 mil comunidades e 21 mil pescadores. Essas experiências estão associadas ao aumento da abundância de peixes e da riqueza de espécies, além de benefícios econômicos e sociais.
Entre as medidas recomendadas estão a proteção de rios de fluxo livre, a recuperação de regimes naturais de vazão, a restauração de habitats e espécies, a melhoria da qualidade da água e a prevenção da expansão de espécies não nativas. Como rios, peixes, sedimentos e nutrientes atravessam fronteiras, os autores defendem ações articuladas em escala de toda a bacia, com participação formal de povos indígenas e comunidades locais. Para a diretora administrativa regional da TNC para a América Latina, Paula Caballero, proteger os sistemas de água doce da Amazônia é um imperativo ambiental e também uma necessidade econômica e social.
Análise WeekNews: O estudo evidencia que a conservação da biodiversidade aquática amazônica está diretamente ligada à manutenção de serviços ecossistêmicos e meios de vida locais. A ênfase em iniciativas comunitárias e na participação indígena sugere que estratégias de proteção podem ser mais eficazes quando integram conhecimento tradicional, o que reforça a importância de políticas que conciliem preservação ambiental e direitos sociais na região.
Fonte: Agência Brasil.
