
A imagem dos jogadores da seleção argentina exibindo uma faixa com a frase “As Malvinas são argentinas” após a vitória sobre a Inglaterra por 2 a 1, na semifinal da Copa do Mundo, na quarta-feira (15), correu o mundo e reacendeu o debate sobre a soberania do arquipélago. O ato, que pode gerar punições da Fifa por violar regras contra manifestações políticas, foi visto como um gesto de união nacional e reavivou a discussão sobre a posse das ilhas, reivindicadas pela Argentina, mas administradas pelo Reino Unido. Neste domingo (19), a Argentina enfrenta a Espanha na final em busca do quarto título mundial.
A faixa, improvisada a partir de um lençol de hotel por um torcedor, foi erguida pelos jogadores em campo e rapidamente se tornou símbolo de uma causa que transcende o futebol. “O gesto dos jogadores, de exibir para o mundo inteiro uma bandeira confeccionada por um torcedor a partir de um lençol de hotel, tornou-se um feito compartilhado por todo o povo argentino”, afirmou à Agência Brasil a ex-embaixadora argentina no Reino Unido, Alicia Castro. Ela comparou o ato ao do técnico egípcio Hossam Hassan, que ergueu uma bandeira da Palestina sem ser punido, já que a seleção palestina é afiliada à Fifa.
As Ilhas Malvinas, localizadas a 500 quilômetros da costa argentina, no Atlântico Sul, são objeto de disputa entre Argentina e Reino Unido há décadas. A Argentina considera o arquipélago parte de seu território e mantém uma reivindicação de soberania, apoiada pela ONU, que defende uma solução pacífica para o conflito no âmbito da descolonização. Em 1982, os dois países travaram uma guerra de 74 dias que deixou centenas de mortos, a maioria soldados argentinos, e o tema é tratado como uma “ferida aberta” no país.
O cientista político Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria e torcedor do Boca Juniors, explicou que a questão das Malvinas está presente na cultura argentina, especialmente no futebol. “A torcida da seleção traz essas lembranças, assim como os clubes locais. Todos fazem alguma menção à questão das Malvinas”, disse. “Essa é uma agenda que unifica o país, está acima de qualquer divergência ideológica.”
Além do apoio popular, o gesto provocou desconforto entre os britânicos. O colunista Simon Jenkins, do jornal The Guardian, pediu negociação entre os países, afirmando que “nenhum dos territórios britânicos da era imperial tem o direito eterno de permanecer como está, muito menos um que custe aos contribuintes mais de 60 milhões de libras anuais”.
O embaixador Guillermo Carmona, que foi secretário das Malvinas do governo argentino até 2023, no governo de Alberto Fernández, considera a gestão britânica anacrônica. “Isso não pode continuar indefinidamente”, afirmou. Para ele, a faixa foi um ato de “soft power” para destravar as negociações. “O gesto dos jogadores deveria despertar os diplomatas britânicos de sua inércia e forçá-los a confrontar uma realidade geográfica e histórica inescapável”, reiterou.
A diplomata Alicia Castro acrescentou que a faixa demonstrou que “a luta contra o colonialismo permanece um imperativo ético”. “Além de superioridade em campo, os nossos jogadores demonstraram um profundo senso de humanidade e, por isso, receberam apoio internacional”, avaliou.
Qualquer punição aos jogadores, solicitada por autoridades britânicas, foi classificada como hipocrisia pelos entrevistados. Para Carmona, a Fifa aplica as regras de acordo com a conveniência. “A Fifa baniu a Rússia de competições por motivos geopolíticos, cedeu aos Estados Unidos para suspender sanções a jogadores e maltratou o Irã por razões alheias ao esporte”, criticou. Ele observou que a entidade atua como instrumento do norte global para desmerecer manifestações de soberania, como quando vetou a camisa do Haiti na Copa por conter referências à revolução que levou à independência do país.
A Fifa não comentou as críticas, mas informou que o procedimento padrão é acionar o Comitê Disciplinar Independente, que já avalia os relatórios da partida. Em 2014, a federação multou a Associação do Futebol Argentino (AFA) em US$ 33 mil após jogadores exibirem faixa com a mesma mensagem em um amistoso contra a Eslovênia. O desfecho do caso atual ainda é incerto, mas o gesto já marcou a Copa do Mundo e reacendeu uma disputa que mistura esporte, política e história.
Fonte: Agência Brasil.

