
O segundo dia do Festival Pacto das Pretas ocorreu nesta segunda-feira (21), no Museu de Arte do Rio (MAR), reunindo cerca de 1,5 mil líderes para debater governança corporativa e diversidade sob o conceito “Movimento: Mulheres Negras Criando”. O evento, que chegou à quinta edição em 2026, teve início na última sexta-feira (17) em Salvador e será encerrado na próxima sexta (24) em São Paulo.
A iniciativa é liderada pelo Pacto de Promoção da Equidade Racial (PER), que atua como plataforma nacional de impacto socioeconômico e conta com o apoio de empresas como Aegea, Caixa Capitalização, Banco do Brasil, Vivo, XP Inc e Natura. O pacto implementa um Protocolo ESG Racial para o país e tem 85 empresas signatárias.
A presidente do Conselho Deliberativo do PER, a historiadora Wânia Sant’Anna, destacou a importância de consolidar o papel das mulheres negras como tomadoras de decisões estratégicas na economia e na tecnologia. “O festival tem esse objetivo de trazer, em um evento desenhado para isso, a visão, a opinião e a prática de mulheres negras que têm atuado no terreno do trabalho. Não é um evento de saúde e de educação. É um evento em que a grande pauta é empregabilidade, empreendedorismo, economia e empoderamento para estar nesses lugares”, afirmou em entrevista à Agência Brasil. Ela acrescentou: “Isso sem descartar, de maneira nenhuma, os processos discriminatórios que as empresas têm, de não lhes dar oportunidades ou minimizar as suas entregas. É disso que estamos falando aqui”.
A escritora e comunicadora Luna Vitrolira, que participou do encontro, ressaltou que, quando uma mulher negra lidera, dificilmente caminha sozinha. “Ela abre caminhos, compartilha oportunidades e inspira outras mulheres a acreditarem que também podem ocupar espaços de poder e decisão. Incentivar essa liderança é investir em um futuro mais justo, mais próspero e mais representativo para toda a sociedade”, declarou.
Um dos destaques da edição é a Plataforma Black Hub, lançada em 17 de junho em São Paulo. Descrita como “um ecossistema digital direcionado à educação antirracista, cultura e aceleração profissional”, a plataforma foi viabilizada pela Lei Rouanet e conta com investimento de marcas como Banco Itaú, Caixa Capitalização, Bayer e Fujifilm. Por meio dela, é possível acessar projetos como a Cartilha ESG Racial, desenvolvida em parceria com o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife). “A publicação traz diretrizes de aplicação prática e indicadores para orientar o setor corporativo a incorporar a pauta antirracista de forma estratégica e integrada às suas práticas de gestão, governança e impacto social”, informou a organização do evento.
Outro guia lançado é a Cartilha de Enfrentamento à Violência, liderada por Wania Sant’Anna e desenvolvida em parceria com o escritório Daniel Law, signatário do PER. Segundo os organizadores, a cartilha “reúne recomendações, diretrizes, referências legais e orientações práticas para apoiar empresas na prevenção, sensibilização e construção de uma cultura corporativa de proteção às mulheres”.
Na área cultural, o livro “Vozes que Ocupam” reúne 16 crônicas inéditas assinadas por lideranças negras da cultura, comunicação e educação, como Djamila Ribeiro, Rodrigo França, Érica Januza, Diogo Almeida, Dom Filó, Pedro Rajão e Isabel Fillardis.
Wânia Sant’Anna destacou que o encontro ocorre na semana do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho. “Nada melhor que falar sobre isso na semana do 25 de julho”, afirmou.
Luna Vitrolira disse que o principal recado que levou para esta edição foi o de que nenhuma transformação acontece sozinha. “Eu venho do Nordeste, de Pernambuco, de uma tradição em que a palavra é encontro, é memória e também é ferramenta de mudança. Aprendi que a voz tem o poder de reunir pessoas, criar pontes e abrir caminhos”, contou. Como poeta e cerimonialista, ela procurou conduzir o encontro lembrando que estratégia, arte e sensibilidade não são opostas. “Podemos falar de negócios, liderança, inovação e desenvolvimento sem perder de vista o afeto, a poesia, a escuta”, relatou. “O futuro que queremos construir precisa reconhecer a potência das mulheres negras não como exceção, mas como parte essencial do presente. Quando uma mulher negra ocupa o centro da narrativa, toda a sociedade amplia seu horizonte de possibilidades”, destacou.
Segundo a escritora, as reações do público mostraram que existe uma demanda muito grande por espaços como este. “As mulheres estavam ali para falar e ouvir, compartilhando experiências, criando conexões e se reconhecendo nas histórias umas das outras. Acho que o Pacto das Pretas nos lembra que desenvolvimento não é apenas crescimento econômico. É também acesso à informação, fortalecimento de redes, ampliação de direitos e confiança para ocupar espaços de decisão”, afirmou.
O festival também funciona como polo de atração de talentos para o topo do mercado corporativo, com a imersão presencial das 30 executivas selecionadas pelo Programa Pacto Transforma. A iniciativa identifica profissionais seniores de diversas regiões do Brasil para acelerar suas competências de alta governança, preparando-as estrategicamente para assentos de conselho e cargos de C-Level. “A presença desse grupo sela o festival como o principal hub de networking qualificado e atração de talentos para posições de liderança no país, conectando diretamente esse pipeline executivo de elite aos diretores de sustentabilidade e CEOs das organizações parceiras”, observou a organização.
Fonte: Agência Brasil.
