
O Governo do Distrito Federal (GDF) comunicou oficialmente, nesta segunda-feira (10), o cancelamento da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que estava marcada para ocorrer entre os dias 11 e 19 de setembro, no Cine Brasília. A decisão foi repassada aos organizadores do evento, que já haviam recebido um número recorde de inscrições: 1.928 obras disputavam uma vaga na mostra competitiva. A coletiva de imprensa para anunciar a programação completa estava agendada para o dia 18 de agosto, e mais de 80 filmes já estavam confirmados, envolvendo centenas de profissionais do audiovisual de todo o país.
O diretor artístico do festival, Eduardo Valente, manifestou-se nas redes sociais lamentando o cancelamento. Segundo ele, a seleção dos filmes já havia sido concluída e todos os envolvidos estavam “empolgados e com planos para suas estreias”. Valente também convocou a união do setor para tentar reverter a situação. “O que teremos para amanhã e depois? Difícil dizer, mas, seguramente, nem essa edição nem o futuro deste evento será determinado só por quem estava aqui lutando para organizá-lo. Teremos que ver o quanto as associações em geral, o setor do cinema, o público do DF e até, por que não, outros festivais de cinema do país estarão dispostos a se juntar nessa briga”, escreveu.
Os organizadores do festival devem publicar uma nota de repúdio nesta terça-feira (11), repudiando a decisão do GDF e pedindo a reversão do cancelamento. Procurada pela Agência Brasil, a Secretaria de Cultura do Distrito Federal não se manifestou sobre o caso até o momento, deixando o espaço aberto para um posicionamento oficial.
A notícia gerou reações de tristeza e revolta entre profissionais do audiovisual. Tiago de Aragão, diretor no Centro-Oeste da Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API), associou o cancelamento à crise instalada no GDF após o escândalo envolvendo os bilhões de reais em títulos podres do Banco Master comprados pelo Banco de Brasília (BRB). “São dezenas de profissionais empregados que já estavam trabalhando sem receber; são produtoras e cineastas de todo o país que reservaram o lançamento dos seus filmes para Brasília. A imagem que fica é de um GDF que não honrará seus compromissos para sanar um rombo causado em uma história espúria que envolveu o BRB com o Banco Master e Vorcaro”, afirmou.
Tatiana Costa, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), também criticou a decisão, destacando seu potencial de reverberar por outros festivais do país. “Só durante a ditadura que o Festival de Brasília não foi realizado. E o que isso significa simbolicamente? Para além das decisões financeiras, é uma decisão política do GDF. Isso nos preocupa imensamente, porque não ameaça apenas o festival de Brasília, e sim todos os festivais de cinema do Brasil”, declarou.
A cineasta brasiliense Carina Bini, que no ano passado subiu ao palco do Cine Brasília com todo o elenco de seu filme “Mil Luas” para apresentá-lo ao público, lamentou a perspectiva de um auditório vazio e uma tela apagada em setembro. “O Festival de Brasília movimenta todo um mercado de trabalho, uma cadeia produtiva do audiovisual, traz pessoas para a cidade, ele é um evento que gera emprego, gera recurso para o Distrito Federal e é importante historicamente para o cinema brasileiro”, destacou.
O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é o mais longevo do país e chegaria, em 2026, à marca de 59 edições. Nascido em 1965, o evento consolidou-se ao longo das décadas como um espaço de debate sobre o audiovisual brasileiro e, desde 2007, é considerado patrimônio imaterial do Distrito Federal. Em toda a sua história, o festival só deixou de ser realizado em dois anos, ambos durante a ditadura militar.
Uma característica que diferencia o Festival de Brasília de outros eventos do gênero é a exigência de que as obras selecionadas sejam inéditas. Os vencedores recebem o Troféu Candango, uma homenagem aos pioneiros que construíram a capital federal.
Com o cancelamento, ficam suspensas as expectativas de centenas de cineastas, produtores e profissionais que já estavam mobilizados para a edição deste ano. A classe artística aguarda agora os desdobramentos da nota de repúdio e a possível resposta do GDF, enquanto cresce o temor de que a decisão abra um precedente preocupante para o futuro do cinema brasileiro.
Fonte: Agência Brasil.
