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O medo da violência tem levado mulheres da Região Metropolitana do Rio de Janeiro a alterar trajetos, evitar determinados horários e até abandonar atividades de trabalho e lazer. A conclusão é da pesquisa “Rotina Calculada”, realizada pela ONG Movimentos em parceria com o Instituto Fogo Cruzado e o Instituto Update.
O estudo reúne relatos de 20 mulheres, com recortes de cor, raça, situação econômica, social e de moradia, para analisar como a insegurança limita o direito de ir e vir e interfere nas escolhas cotidianas. Segundo o levantamento, a insegurança atinge mulheres de diferentes perfis, mas os recursos disponíveis para lidar com o medo variam conforme as condições econômicas e o local de residência.
A análise aponta que o fator financeiro determina o nível de exposição ao risco. Mulheres com renda maior relatam recorrer a alternativas de segurança, como corridas por aplicativos, táxis ou hospedagens. Entre as mulheres com menor poder aquisitivo, os depoimentos indicam uma dinâmica distinta: o preço das passagens impede a escolha de trajetos alternativos, o que leva esse grupo a caminhar por vias muitas vezes sem iluminação ou a recusar vagas de emprego em razão dos riscos do trajeto.
“As mulheres já deixam de fazer atividades de lazer, não somente em locais públicos, mas também dentro de espaços como a academia. Uma das entrevistadas apontou para a gente que nunca houve a possibilidade de fazer um exercício físico dentro de uma academia pelo medo de sofrer a transfobia”, afirma a coordenadora de comunicação da ONG Movimentos, Isabelly Damasceno.
As relações pessoais também aparecem entre as estratégias de segurança adotadas pelas entrevistadas. De acordo com Isabelly, homens desconhecidos são apontados como a principal fonte de medo, enquanto homens do círculo social dessas mulheres acabam funcionando como uma espécie de escudo — para voltar mais tarde para casa ou aguardar no ponto de ônibus, por exemplo.
“O problema nem sempre para essas mulheres é estar sozinha. Mas sozinha essas mulheres se sentem sim mais expostas ao risco, mas também não é confortável que elas sempre dependam de um homem conhecido ou de uma outra rede de apoio para sustentar essa sensação de segurança na cidade”, diz a coordenadora.
O levantamento também indica que as vivências de mulheres trans mostram como a transfobia se soma à violência cotidiana. Para Isabelly, a segurança pública precisa não apenas reduzir os índices de violência, mas também considerar os cálculos que essas mulheres fazem para exercer o direito à cidade e à livre circulação.
A pesquisa aponta ainda que a insegurança interfere na rotina feminina desde os horários de saída de casa até a escolha das roupas utilizadas. Diante desse cenário, o estudo sugere que essas dinâmicas de sobrevivência sejam integradas aos dados oficiais, de modo a permitir a criação de políticas públicas de segurança direcionadas à população feminina. A pesquisa completa está disponível no endereço movimentos.org.br.
Fonte: Agência Brasil.
