Quase metade dos médicos de UTI no Brasil tem esgotamento emocional elevado, aponta inquérito




Quase metade dos médicos de UTI no Brasil tem esgotamento emocional elevado, aponta inquérito
Fonte da imagem: Agência Brasil


Um inquérito nacional conduzido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) revelou que 48,5% dos médicos que atuam em unidades de terapia intensiva (UTIs) no Brasil apresentam nível elevado de esgotamento mental e emocional. O estudo ouviu 2.338 profissionais em 26 estados e no Distrito Federal.

Os dados fazem parte do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras. Além do esgotamento elevado, 46,4% dos entrevistados relataram baixo grau de satisfação com suas atividades. Quando somados os profissionais com grau moderado de satisfação, 84,5% da força de trabalho médica demonstra não estar totalmente satisfeita com o exercício da medicina nas UTIs.

O levantamento aponta que quatro em cada cinco médicos intensivistas (79,7%) requerem atenção e cuidado com a saúde emocional. Desse total, 31,2% indicaram esgotamento moderado e 48,5% sinalizaram alto nível de desgaste. Apenas 20,3% dos entrevistados relataram baixos níveis de esgotamento emocional.

A Amib avaliou, em nota, que os achados sugerem um quadro de grande vulnerabilidade dos médicos intensivistas à síndrome de burnout, caracterizada por exaustão emocional, distanciamento afetivo e sensação de baixa realização pessoal. Para a entidade, a saúde mental desses profissionais não deve ser tratada como pauta secundária, mas como questão prioritária para políticas públicas, além de exigir mobilização de gestores, instituições e autoridades de saúde.

Entre os fatores apontados pela Amib como possíveis causas do cenário estão a carga horária elevada, a exposição constante a situações críticas, incluindo a precariedade da infraestrutura, e a demanda crescente da população por cuidados diante de uma rede de cobertura limitada. Também são citados o confronto diário com situações limite, como dor, sofrimento e morte, e a exigência de tomadas de decisões ágeis e precisas.

O estudo também mediu o grau de despersonalização dos profissionais, fenômeno caracterizado pelo distanciamento emocional e por atitudes classificadas como frias, apáticas ou cínicas em relação a pacientes e colegas de trabalho. Segundo o levantamento, 45,6% dos intensivistas afirmam ter algum grau de despersonalização, sendo que 29,6% apresentam nível moderado e 16% reportaram níveis elevados.

A Amib destacou que esse comportamento prejudicial ao ambiente assistencial compromete a qualidade do atendimento, afeta a dinâmica de comunicação nas equipes e se contrapõe à humanização do cuidado.

Os dados mostram ainda uma relação entre o grau de especialização e os níveis de desgaste. Quanto mais especializado o médico que atua em ambiente intensivo, menor o nível de esgotamento mental, menor a referência a comportamentos de distanciamento afetivo e maior o grau de realização pessoal com a profissão. Por outro lado, quanto menos especializado o profissional, maiores os níveis de esgotamento e de distanciamento, e menor a satisfação com o próprio desempenho.

Entre médicos intensivistas, 44,5% relataram alto nível de esgotamento emocional, 12,7% alto grau de despersonalização e 39,8% baixo nível de satisfação com o próprio desempenho. Já entre os médicos generalistas que trabalham nas UTIs, os percentuais foram de 52,3%, 20,1% e 50,7%, respectivamente.

Durante coletiva de imprensa, o diretor de Comunicação do CFM, Estevam Rivello, chamou a atenção para os diferentes impactos da pressão sobre os médicos intensivistas dos sistemas público e privado. Segundo ele, no sistema suplementar o profissional dispõe de estrutura e arsenal terapêutico que pode implementar na assistência ao doente grave com maior facilidade do que no serviço público. Rivello afirmou que o nível público registra maior estresse, porque lida com um profissional que não tem a mesma remuneração do serviço suplementar e que tem mais vínculo empregatício em relação a esse setor.

Análise WeekNews: Os números do inquérito indicam que o desgaste emocional atinge proporção expressiva da força de trabalho médica nas UTIs brasileiras, com quase metade dos profissionais em nível elevado de esgotamento e apenas um quinto sem sinais relevantes de desgaste. A diferença entre especialistas e generalistas sugere que a formação e a especialização podem funcionar como fatores de proteção, enquanto a comparação entre os setores público e privado, apontada pelo CFM, reforça que as condições de trabalho e de infraestrutura são elementos centrais para entender o quadro. Na prática, os dados sustentam a avaliação da Amib de que a saúde mental dos intensivistas precisa ser tratada como questão prioritária de políticas públicas, e não como pauta secundária.

Fonte: Agência Brasil.

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