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A Rádio Nacional da Amazônia, que integra a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) desde 2007, celebra 90 anos de operação mantendo um alcance que atravessa fronteiras. O sinal da emissora, transmitido por uma antena instalada no Parque do Rodeador, na zona rural de Brasília, utiliza ondas curtas (OC) para chegar a locais onde não há sinal de satélite, internet ou telefone.
O funcionamento dessa tecnologia depende da ionosfera, camada da atmosfera com cargas elétricas que reflete os sinais de rádio. Segundo o professor de engenharia eletrônica Ronaldo Siqueira Barbosa, dependendo da altitude que a ionosfera atinge — entre 400 km e 700 km —, é possível estabelecer um meio de propagação que leva a onda a grandes distâncias. “Eu posso fazer uma transmissão de Brasília para o Canadá, para a Europa e muitas vezes fazer até uma segunda volta pela ionosfera e chegar à própria Brasília”, explica.
A historiadora Lia Calabre destaca que as ondas curtas são as que atravessam o oceano. “Eram as ondas que atravessavam o oceano que nos permitiam ouvir a BBC de Londres, que permitiam inclusive ao Brasil transmitir para além dos seus limites territoriais, ter a antena voltada para os Estados Unidos, ter a antena voltada para a América Latina, ter a antena voltada para a Europa”, afirma.
Inaugurada em setembro de 1977, no governo de Ernesto Geisel, durante a ditadura militar, a Rádio Nacional da Amazônia surgiu dentro de um projeto de integração nacional para alcançar locais isolados, como a região da Floresta Amazônica, onde até então só chegavam rádios estrangeiras. A jornalista Tereza Cruvinel, primeira presidenta da EBC, conta que o projeto inicial dos militares era criar uma grande rede internacional de rádio. “Era um projeto ambicioso. E quando acabou o governo Médici e veio o governo Geisel, o milagre econômico tinha acabado. Então não havia mais dinheiro para fazer aquilo tão grande, e aí se voltaram para a Amazônia”, relata.
Taís Ladeira, ex-gerente das rádios da EBC, ressalta o papel da emissora na prestação de serviços e no direito à cidadania. “Nas comunidades rurais, ribeirinhos, em regiões distantes dos grandes centros, a conexão desses moradores ao resto do país. A Rádio Nacional da Amazônia funcionava quase como uma rede social. As pessoas mandavam cartas e se comunicavam, reencontravam parentes. Passavam a conhecer o direito, por exemplo, ao registro civil de nascimento”, diz.
Apelidada de “Orelhão da Amazônia”, a emissora ampliou no ano passado sua faixa internacional, com conteúdos diários em inglês e espanhol para alcançar mais ouvintes pelo mundo.
Análise WeekNews: A manutenção das transmissões em ondas curtas por quase cinco décadas indica que a tecnologia segue sendo um instrumento relevante de integração nacional e de projeção internacional do Brasil, especialmente em regiões onde a infraestrutura de telecomunicações é limitada. A ampliação recente para conteúdos em inglês e espanhol sugere uma tentativa de reposicionar a emissora em um cenário de comunicação global, aproveitando uma característica técnica que a distingue de plataformas digitais dependentes de conexão à internet.
Fonte: Agência Brasil.
