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Pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego) alcançaram um marco na medicina robótica ao realizar, pela primeira vez, cirurgias de vesícula biliar com robôs humanoides teleoperados. O experimento, publicado este mês na revista Nature, envolveu dois procedimentos laparoscópicos em porcos, nos quais os robôs copiaram os movimentos de cirurgiões humanos, sem tomar decisões médicas. A inovação abre caminho para que especialistas possam operar remotamente em locais de difícil acesso, como clínicas rurais ou hospitais de campanha, utilizando máquinas de baixo custo e que se adaptam a salas cirúrgicas comuns.
Os testes foram conduzidos em duas etapas. Na primeira, um único robô humanóide manipulou os instrumentos cirúrgicos enquanto um cirurgião humano auxiliava ao lado. Na segunda, dois robôs trabalharam em equipe, lado a lado, sob controle remoto dos médicos. As tarefas incluíram manipulação de tecidos, dissecção ao redor da vesícula biliar e colocação de clipes para remoção do órgão. O objetivo era verificar se um robô de uso geral, adaptado com ferramentas cirúrgicas padrão, conseguiria realizar movimentos precisos o suficiente para completar uma operação. O resultado foi positivo, mas o estudo também revelou desafios que precisam ser superados antes de testar o sistema em humanos.
O robô, batizado de Surgie, foi criado a partir de modelos comerciais Unitree G1, modificados com adaptadores nas mãos para segurar instrumentos laparoscópicos. Cada unidade tem cerca de 1,5 metro de altura e pesa aproximadamente 27 quilos, o que as torna muito menores e mais leves que os sistemas robóticos cirúrgicos tradicionais, como o Da Vinci, que pode pesar até 800 quilos. Enquanto os robôs cirúrgicos convencionais exigem salas adaptadas e instalação fixa, o Surgie pode ser transportado entre salas e operado em espaços projetados para humanos. “Ficamos surpresos com o quão bem o Surgie se integrou ao nosso espaço de trabalho e fluxo de trabalho”, afirmou Nikita Thareja, médica residente em cirurgia geral da UC San Diego e coautora do estudo.
O custo do robô base Unitree G1 é de US$ 13.500, valor muito inferior aos US$ 700 mil a US$ 3 milhões de um sistema Da Vinci. No entanto, esse preço não inclui os adaptadores cirúrgicos, instrumentos e equipamentos de controle remoto utilizados na pesquisa. Os pesquisadores não divulgaram o custo total do Surgie completo. A diferença de preço, porém, sugere que robôs humanoides podem tornar a cirurgia robótica mais acessível, especialmente em regiões com recursos limitados.
A principal vantagem do formato humanóide é a flexibilidade. Diferentemente dos robôs cirúrgicos atuais, que são fixos e dependem de equipamentos especializados, o Surgie pode operar em salas comuns, usar instrumentos feitos para mãos humanas e ser deslocado entre diferentes ambientes. Os pesquisadores imaginam que, no futuro, o robô possa não apenas realizar cirurgias, mas também buscar instrumentos durante o procedimento, preparar a sala ou auxiliar na limpeza. O objetivo não é substituir o cirurgião, mas permitir que um especialista opere remotamente em locais onde não há médicos disponíveis, como comunidades rurais, hospitais de campanha ou até missões espaciais.
Apesar do avanço, o experimento expôs limitações importantes. Os robôs precisaram ser recalibrados várias vezes durante as cirurgias, e o tempo total dos procedimentos foi muito maior do que o necessário com sistemas robóticos estabelecidos. Outro problema é a latência — o atraso entre o movimento do cirurgião no console e a resposta do robô. Em uma videochamada, um pequeno atraso é tolerável; em uma cirurgia, pode comprometer a precisão. Esse desafio se agrava quando o cirurgião e o robô estão distantes um do outro.
Os pesquisadores também precisarão melhorar a confiabilidade e o tempo de resposta do sistema, além de demonstrar que ele pode realizar procedimentos de forma segura e repetível. Hospitais que adotarem a tecnologia terão que manter uma equipe cirúrgica qualificada de prontidão para intervir caso o robô pare de responder ou a conexão remota falhe. A segurança do paciente é prioridade: antes de qualquer teste em humanos, será necessário garantir que o sistema opere sem riscos.
Quanto à autonomia, os robôs atualmente são controlados inteiramente por humanos. A equipe da UC San Diego planeja desenvolver um “assistente cirúrgico autônomo” que possa reconhecer ferramentas ou realizar tarefas limitadas sob supervisão. Outros grupos já testaram robôs com IA que completaram fases de cirurgias em modelos sintéticos, mas operar em pacientes vivos é muito mais complexo. Sangramentos inesperados e mudanças rápidas no estado do paciente exigem capacidade de reação que ainda está longe de ser alcançada por máquinas. Além disso, a cirurgia autônoma levanta questões éticas e legais sobre responsabilidade em caso de erro.
A segurança cibernética também é uma preocupação. Sistemas de cirurgia remota precisam proteger o software e as comunicações contra acessos não autorizados, ao mesmo tempo que devem continuar operando com segurança mesmo em caso de falha de conexão. Os pesquisadores reconhecem que esses desafios precisam ser resolvidos antes que a tecnologia possa ser usada em larga escala.
Por enquanto, a cirurgia com robôs humanoides permanece em estágio pré-clínico. O experimento com porcos é uma prova de conceito, e não há previsão para testes em humanos. No entanto, o estudo oferece um vislumbre do futuro da medicina: um robô móvel e acessível que pode levar a perícia de um especialista a qualquer lugar. Para o paciente, isso pode significar acesso a procedimentos complexos sem a necessidade de longas viagens. Mas, como alertam os pesquisadores, a segurança nunca deve ser sacrificada pela conveniência. Antes de concordar com uma cirurgia assistida por robô, o paciente deve saber quem controla a máquina, o que acontece se a conexão falhar e se uma equipe cirúrgica qualificada permanece na sala. O robô pode segurar o instrumento, mas o julgamento humano continua sendo a parte mais importante da operação.
Leia mais aqui em inglês: https://www.foxnews.com/tech/humanoid-robots-perform-live-surgery-world-first.
Fonte: Fox News.
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2026-07-14 12:42:00

