
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a instaurar um inquérito para apurar os repasses de recursos feitos pelo empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, à produção do filme “Dark Horse”, uma cinebiografia sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão, divulgada nesta quinta-feira (23), atende a um pedido da própria PF e contou com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR).
O caso veio a público em maio deste ano, quando o site The Intercept revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria solicitado dinheiro a Vorcaro para financiar as gravações do longa-metragem. De acordo com a publicação, o ex-banqueiro teria repassado cerca de R$ 61 milhões à produtora entre fevereiro e maio de 2025. A informação foi baseada em áudios de uma conversa entre Flávio e Vorcaro, ocorrida em novembro do ano passado, que foram divulgados pelo site.
Após a divulgação dos áudios, o senador Flávio Bolsonaro negou ter combinado qualquer vantagem indevida com o banqueiro. Em nota, ele afirmou que os recursos repassados ao filme eram integralmente privados e que não houve contrapartida ilegal. A defesa do senador sustenta que a transação foi lícita e que o financiamento de obras audiovisuais por empresas privadas é prática comum no mercado.
O inquérito no STF foi aberto após o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) solicitar a investigação. O parlamentar argumentou que os repasses poderiam configurar irregularidades, como caixa dois ou tráfico de influência, especialmente por envolver um familiar do ex-presidente e um empresário do setor financeiro. A PGR também se manifestou favoravelmente à abertura do procedimento.
A decisão de Mendonça autoriza a PF a realizar diligências para esclarecer a origem e a destinação dos recursos, bem como eventuais contrapartidas ou benefícios obtidos por Vorcaro ou pelo Banco Master. O ministro também determinou que a investigação seja conduzida sob sigilo, para evitar vazamentos que possam comprometer as apurações.
Até a publicação desta reportagem, a reportagem não havia conseguido contato com a produtora audiovisual Up Entertainment, responsável pela obra “Dark Horse”. A empresa não se manifestou sobre os repasses ou sobre o andamento da produção do filme, que tem previsão de lançamento ainda sem data definida.
O caso ganhou repercussão política e jurídica, especialmente por envolver o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho, o senador Flávio. Em outras ocasiões, ambos já foram alvo de investigações relacionadas a supostas irregularidades financeiras, como o caso das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Agora, a PF terá que apurar se os repasses para o filme seguiram a legislação eleitoral e financeira.
A autorização de Mendonça ocorre em meio a um cenário de tensão entre o STF e aliados de Bolsonaro. Recentemente, os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes criticaram o vazamento de conversas do celular de Vorcaro, que também foram utilizadas em outras investigações. A PF, por sua vez, já intimou o senador Jaques Wagner (PT-BA) a depor sobre investigações relacionadas ao Banco Master, ampliando o escopo das apurações.
O filme “Dark Horse” é descrito como uma cinebiografia que abordaria a trajetória política de Jair Bolsonaro, desde sua carreira como deputado federal até a presidência da República. A produção estava sendo financiada por investidores privados, mas os repasses de Vorcaro chamaram a atenção das autoridades devido ao volume de recursos e à proximidade entre as partes envolvidas.
A expectativa agora é que a PF ouça os envolvidos, analise documentos bancários e contratos, e verifique se houve qualquer tipo de irregularidade. O inquérito pode resultar em indiciamentos ou no arquivamento do caso, dependendo das provas colhidas. Enquanto isso, o senador Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro seguem sem se pronunciar oficialmente sobre o andamento da investigação.
Fonte: Agência Brasil.
