
A TV Brasil exibe nesta segunda-feira (31), às 23h, uma nova edição do programa Caminhos da Reportagem, que investiga a construção da identidade parda no Brasil e a presença dessas pessoas na sociedade contemporânea. Intitulada ‘A Cor do Meio’, a atração conta com entrevistas de especialistas, acadêmicos e pessoas comuns para discutir o tema.
De acordo com o Censo de 2022, mais de 90 milhões de brasileiros se declararam pardos, o que equivale a quatro ou cinco em cada dez pessoas. A região Norte concentra a maior proporção de pardos (67,2%) e também de indígenas (45%). O professor Gersem Baniwa, do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, explica que muitos indígenas acabam adotando a identidade parda como forma de sobrevivência, para evitar opressões e massacres.
O filósofo e líder indígena Ailton Krenak, por sua vez, classifica a invenção do pardo como um ‘truque colonial’. Para ele, a disputa histórica sobre quem é pardo, preto, branco ou indígena é política, e os indígenas, ao não participarem dela, perderam espaço e passaram a ser chamados de pardos, o que impediria a reivindicação de territórios.
A reportagem também aborda desigualdades educacionais: pretos e pardos são três em cada cinco brasileiros que abandonam os estudos antes do ensino superior. As ações afirmativas, como as cotas raciais, têm contribuído para mudar esse cenário. A assistente social Luiza Carvalho, que concluiu recentemente o doutorado, relata ter enfrentado preconceito desde a infância, com orientações para ‘prender o nariz’ ou evitar alimentos que ‘escurecessem’ a pele. Ela afirma que foi a única pessoa negra em sua seleção de doutorado e quase desistiu.
Helio Santos, presidente do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais, defende que as políticas afirmativas sejam inclusivas, destacando que, entre os afro-brasileiros, 82% são pardos e 18% são pretos. A historiadora Ana Flávia Magalhães aponta que a categoria parda foi criada para esvaziar a contribuição africana e indígena, e que o racismo persiste no país por meio de um ‘pacto de silêncio’.
O programa também mostra o caso do pesquisador Gustavo Amora, que recorreu à Justiça após ter sua autodeclaração de pardo rejeitada em uma banca de heteroidentificação para concurso público. Ele venceu a causa, mas ainda aguarda a nomeação. A mobilização de cerca de 150 pessoas em situação semelhante pressionou por mudanças nos critérios de avaliação.
A educação é apresentada como ferramenta de transformação. Uma escola pública de Ceilândia, no Distrito Federal, trabalha conteúdos antirracistas durante todo o ano, com base na Lei 10.639. A orientadora educacional Eliane dos Santos ressalta que a lei existe há mais de 20 anos e defende ações efetivas. A aluna Ana Luisa Souza, de 10 anos, diz que aprendeu a valorizar a própria cor e a respeitar a diversidade.
Análise WeekNews: A edição do Caminhos da Reportagem evidencia que a identidade parda é um fenômeno complexo, atravessado por questões históricas, políticas e sociais. Os dados do Censo e os depoimentos reunidos pelo programa sugerem que a categoria parda, embora majoritária no país, ainda enfrenta desafios de reconhecimento e representatividade, especialmente em espaços de poder e decisão. A discussão sobre cotas e heteroidentificação, presente na reportagem, tende a permanecer no centro do debate público brasileiro.
Fonte: Agência Brasil.
