
O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, incorporou ao seu acervo um vestido branco com detalhes em azul que pertenceu à ialorixá Mãe Bernadete, líder da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. A peça foi doada pelo professor Jurandy Pacífico dos Santos, filho da líder quilombola assassinada em 17 de agosto de 2023.
A entrega ocorreu durante a 3ª edição do Diálogos da Reconstrução, encontro com o tema Memórias, Saberes e Patrimônios Quilombolas no Museu Nacional, realizado nesta semana na instituição, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio. Segundo o museu, a iniciativa integra a proposta de reconhecer e preservar as memórias, os saberes e as práticas das comunidades quilombolas como patrimônios vivos, ampliando as possibilidades de representação dessas histórias na instituição.
Jurandy contou que foi procurado por representantes do museu para avaliar a doação de uma peça de sua mãe e escolheu pessoalmente a indumentária. Para ele, o gesto ultrapassa o valor material do objeto. “Se trata de ancestralidade. Se trata de uma mulher que dedicou 72 anos de sua vida para a defesa dos Direitos Humanos, dos quilombos e do território”, afirmou. “Aquela indumentária para a gente de comunidade quilombola é a questão de manter a memória de Mãe Bernadete viva.”
O gestor cultural e líder do Quilombo Pitanga de Palmares disse ainda que a presença da roupa no Museu Nacional fortalece a cultura afro-brasileira e a memória de um povo que, segundo ele, sempre foi humilhado, sofrido e não reconhecido pelo sistema. “Isso é um reconhecimento. É o resgate da memória, a permanência dessa memória e o empoderamento desse povo”, concluiu.
Em texto encaminhado à imprensa, Jurandy destacou que a doação leva a história, os conhecimentos ancestrais e a identidade quilombola para um dos mais importantes espaços de preservação científica, histórica e cultural do país. Para ele, a peça passa a contribuir para que futuras gerações, pesquisadores e visitantes conheçam não apenas a trajetória de Mãe Bernadete, mas também a história de resistência dos povos quilombolas e das comunidades tradicionais. “Estamos compartilhando com o Brasil e com o mundo um pedaço da nossa história, da nossa ancestralidade e da luta de um povo que continua resistindo”, escreveu.
O filho da ialorixá afirmou que, para os familiares, a entrega representa a continuidade de uma história que não terminou com o assassinato da líder quilombola. É também uma forma de preservar a memória de uma mãe, mulher negra, quilombola e defensora dos direitos humanos. “A indumentária deixa de ser apenas uma peça de vestuário e passa a ser um patrimônio de memória, carregado de identidade, espiritualidade, afeto e representatividade”, disse.
Mãe Bernadete foi morta dentro de casa, no Quilombo Pitanga de Palmares, quando estava com os netos. Os assassinos dispararam 25 vezes, a maioria dos tiros no rosto. Na época, a promotoria entendeu que o motivo foi a atuação da líder contra a expansão do tráfico de drogas na comunidade. Ela estava no programa de proteção desde 2017, ano em que seu filho Binho do Quilombo foi assassinado.
O encontro que recebeu a doação foi promovido pelo Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o Projeto Museu Nacional Vive, a Unesco, a UFRJ e o Instituto Cultural Vale. De acordo com a instituição, o objetivo foi dialogar com lideranças quilombolas de diferentes regiões do país sobre preservação da memória, produção cultural e transmissão de conhecimentos, contribuindo para a construção de um museu plural e democrático.
A diretora de Integração Museu e Sociedade do museu, Thais Mayumi Pinheiro, defendeu a importância de ouvir as lideranças quilombolas para saber como querem estar presentes na instituição e reforçar o compromisso com um museu plural e democrático. Já o gestor das novas exposições do Projeto Museu Nacional Vive, Caio Gonçalves Dias, afirmou que, quando uma mestra ceramista ou uma tecelã quilombola compartilha seu ofício, transmite uma forma de conhecer o mundo. Para ele, cabe ao museu e ao projeto criar condições para que esses saberes sejam reconhecidos, respeitados e apresentados conforme as próprias comunidades entendem que devem ser.
Fonte: Agência Brasil.
