Sociólogo da Guiné-Bissau afirma que Brasil é alvo por causa das terras raras

Sociólogo da Guiné-Bissau afirma que Brasil é alvo por causa das terras raras
Fonte da imagem: Agência Brasil


O sociólogo e ambientalista Miguel de Barros, de 46 anos, natural da Guiné-Bissau, afirmou que comunidades tradicionais brasileiras e africanas estão sendo atacadas e ameaçadas por empresas de países ricos interessadas no domínio das terras raras. A declaração foi feita na noite desta quinta-feira (30), durante conferência magna do 14º Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as), realizado na Universidade de Brasília (UnB). O evento termina nesta sexta-feira (31).

Em sua palestra, Barros avaliou que as ações de um novo projeto colonial por parte de países do Norte Global incluem a busca pelo monopólio do patrimônio dos recursos naturais. Para ele, o controle desses recursos é estratégico não apenas para a manipulação de patentes, mas também para a produção de instrumentos bélicos. “Querem ter controle daquilo que chamam de terras raras. Não só para manipulação e controle de patentes, mas para a produção de instrumentos bélicos”, ressaltou o cientista social.

Considerado uma das principais referências no debate sobre políticas públicas e desenvolvimento social, Barros foi eleito pela Confederação da Juventude da África Ocidental como a personalidade mais influente do ano. Em sua fala, ele destacou que “ter o controle da Amazônia significa controlar a capacidade de produção alimentar, reserva de energia e de água e ainda o poder de fazer guerra com quem quiserem”.

O sociólogo explicou que as empresas buscam elementos estratégicos para a produção de bombas nucleares, carros elétricos e telefones celulares. Ele lembrou que os donos dessas empresas são os mesmos que “tiveram sempre um projeto de financiamento e criaram patrimônio econômico com a colonização. Estão no poder político com a colonização”.

Barros também abordou o papel da inteligência artificial nesse contexto. Para ele, o “novo projeto colonial” é baseado sobretudo no controle das tecnologias atuais, incluindo o desenvolvimento das empresas de inteligência artificial. “Está baseado sobretudo na substituição da força e da capacidade humana pelas máquinas”, afirmou. Ele criticou o setor financeiro da inteligência artificial, dizendo que ele não abarca as necessidades dos povos sofridos e colonizados, configurando um “mecanismo de açambarcamento (apropriação) do saber, do conhecimento e do patrimônio do povo negro”.

O pesquisador defendeu a criação de uma contracorrente que permita aos negros terem suporte tecnológico para enfrentar esse cenário. “A inteligência artificial é também utilizada para a manipulação da biomedicina”, acrescentou.

Durante o evento, Miguel de Barros também criticou a gestão da saúde brasileira no período da pandemia por não ter cooperado com as necessidades do povo africano. “O domínio do poder econômico não permitiu a transferência nem da tecnologia nem dos medicamentos. Até este momento, o continente africano só vacinou um quarto da sua população com duas doses de Covid”, exemplificou.

Na visão do sociólogo, esse neocolonialismo, baseado no desenvolvimento seletivo de tecnologias, impõe uma seletividade sobre o direito à vida, que passa pelo racismo. Ele defendeu que a academia e o poder público devem apoiar formas alternativas de resistência e de emancipação para as populações mais vulneráveis. “No processo de construção de autonomia econômica e política, os resgates dos saberes das comunidades negras e tradicionais são elementos decisivos para garantir o direito à vida dos povos”, concluiu. Para ele, é por isso que os Estados Unidos estão a disputar as eleições no Brasil.

Fonte: Agência Brasil.

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