
A menos de uma semana do fim da Copa do Mundo de 2026, um movimento global formado por mais de cem organizações da sociedade civil intensifica a pressão sobre a Fifa para que a próxima edição do torneio seja a última com patrocínio de fabricantes de bebidas açucaradas. A campanha “Tirem o Refrigerante de Campo” reúne entidades das áreas de saúde, meio ambiente e direitos da infância de diversos países, incluindo oito brasileiras – entre elas o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), o Instituto Desiderata e a Aliança pela Alimentação Saudável.
O principal alvo da iniciativa é a Coca-Cola, uma das marcas que patrocinam a Fifa e, por consequência, as competições organizadas pela entidade máxima do futebol mundial. A campanha argumenta que a associação entre refrigerantes e esporte configura uma prática de “sportswashing” – termo que, em tradução livre, significa “maquiagem esportiva” –, na qual uma marca usa o poder do futebol para normalizar produtos prejudiciais à saúde.
Até a tarde desta terça-feira (14), cerca de 720 mil pessoas já haviam apoiado a iniciativa por meio do site oficial da campanha. As entidades enviaram uma carta aberta ao presidente da Fifa, o suíço-italiano Giovanni Infantino, na qual manifestam preocupação com os efeitos da publicidade de bebidas açucaradas sobre crianças e adolescentes. “Durante o torneio de 2026, até 6 bilhões de torcedores – muitos deles crianças – verão campanhas publicitárias que associam as maiores estrelas do futebol a bebidas açucaradas ligadas à obesidade, diabetes tipo 2 e outras doenças relacionadas à alimentação”, aponta o documento. “Isso é sportswashing: usar o poder do futebol para normalizar produtos prejudiciais à saúde. O futebol merece mais. Os torcedores merecem mais”, completa.
A diretora executiva do Instituto Desiderata, Renata Couto, destaca que a estratégia de marketing das fabricantes de refrigerante é eficiente para fidelizar públicos jovens desde cedo, moldando um comportamento de consumo alimentar que não é saudável e que pode gerar impactos na saúde a curto, médio e longo prazos. “A gente sabe que se trata de uma estratégia de marketing muito eficiente para fidelizar esses públicos desde cedo, podendo moldar um comportamento de consumo alimentar que não é saudável e vai gerar impacto na saúde a curto, médio e longo prazos”, afirmou.
A campanha também se apoia em dados científicos: para cada aumento de 250 mililitros na ingestão diária de bebidas adoçadas, o risco de obesidade cresce 12%; o de diabetes tipo 2 sobe 19%; e o de mortalidade por causas cardiovasculares fica 13% mais alto. Já o risco de mortalidade por todas as causas aumenta 5%. Para a maioria das crianças e adolescentes, um refrigerante de 355 ml já ultrapassa a quantidade diária recomendada de calorias provenientes de açúcares livres, sustenta o movimento.
As organizações lembram que a indústria do tabaco já enfrentou pressão semelhante e deixou de ser aceita como patrocinadora de eventos esportivos. Na virada das décadas de 1990 e 2000, a Fórmula 1, por exemplo, passou a deixar de lado o protagonismo que companhias de tabaco tinham entre os patrocinadores. A expectativa é que o mesmo ocorra com as bebidas açucaradas.
A Agência Brasil procurou a Fifa para comentar o assunto, mas não recebeu retorno até a conclusão da reportagem. A polêmica em torno da publicidade na Copa do Mundo não se restringe aos refrigerantes: a proliferação de anúncios de plataformas digitais de aposta, as chamadas bets, também atraiu críticas de parte da sociedade civil e de autoridades. No Brasil, no último dia 10, portarias ministeriais determinaram uma série de restrições para esse tipo de publicidade, incluindo a obrigatoriedade de alertas como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”.
Fonte: Agência Brasil.
