Conflitos no campo crescem 5% no primeiro semestre, mas assassinatos caem de 27 para 6

Conflitos no campo crescem 5% no primeiro semestre, mas assassinatos caem de 27 para 6
Fonte da imagem: Agência Brasil


O número de assassinatos no campo brasileiro caiu no primeiro semestre de 2026, mas os conflitos agrários aumentaram. É o que aponta levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), divulgado nesta quarta-feira (2). Entre janeiro e junho, foram registrados seis homicídios em áreas rurais, contra 27 no mesmo período de 2025. Já os conflitos subiram de 798 para 841.

O Maranhão segue como o estado com o maior número de conflitos no campo: 156 casos. Em seguida aparecem Pará (90), Bahia (85), Rondônia (63) e Amazonas (63). Os dados do primeiro semestre alimentarão o relatório anual “Conflitos no Campo Brasil”, previsto para 2027.

A comunidade quilombola de Santa Fé, no município de Costa Marques, em Rondônia, teve 74 famílias incluídas no Plano Nacional de Reforma Agrária. Foto: ASCOM/INCRA RO
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A coordenadora nacional da CPT, Cecília Gomes, afirmou que o campo brasileiro está longe de ser um lugar de paz, onde as pessoas não precisam resistir para permanecer na terra. Segundo ela, apesar da queda nos assassinatos, massacres – casos com mais de uma vítima – continuam ocorrendo.

A CPT atribui o cenário ao avanço da mercantilização e da financeirização da terra, com atuação de fundos de pensão e interesse em terras raras, muitas vezes localizadas em territórios de comunidades tradicionais e camponesas. “Toda essa corrida pela terra e pelo que tem na terra acontece cada vez mais no território brasileiro”, denunciou Cecília.

A maioria dos conflitos registrados neste ano é por terra (711), seguida por conflitos por água (100) e ocorrências de trabalho escravo rural (30). Dentro dos conflitos por terra, as violências aumentaram de 584 para 663, enquanto as resistências caíram de 66 para 48, mantendo tendência de queda dos últimos dez anos.

A contaminação por agrotóxicos foi a forma de violência mais frequente, passando de 98 para 169 casos. Também cresceram invasões de territórios (de 96 para 109), desmatamento ilegal (de 67 para 107) e ameaças de despejo (de 63 para 70). Cecília Gomes alertou que os agrotóxicos são usados como arma química: “Não vai matar no momento inicial, mas vai matando o sujeito aos poucos”.

Os conflitos pela água mais que dobraram, de 47 para 100 registros, em 20 estados. O Pará lidera, com 16 ocorrências, seguido por Minas Gerais (11), Amazonas (10) e Mato Grosso (10). No Pará, a CPT destaca a luta dos povos indígenas contra a privatização dos rios e contra o garimpo, além da resistência de ribeirinhos e outros povos à atuação de mineradoras. A entidade lembra que a pressão indígena levou à revogação do Decreto nº 12.600/2025, em fevereiro de 2026, que incluía hidrovias nos rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização.

As ocorrências de trabalho escravo rural caíram de 101 para 30, e o número de trabalhadores vitimados passou de 842 para 355. São Paulo concentrou os maiores números, com 148 resgatados e cinco casos, três deles em atividades de plantio e corte de cana-de-açúcar.

Entre os seis assassinatos, está o massacre de três posseiras em Lábrea (AM). Também foram mortos dois indígenas, em Roraima e Mato Grosso do Sul, e um trabalhador rural sem-terra. As vítimas tinham entre 14 e 45 anos. Os casos de violência contra a pessoa aumentaram de 418 para 588, e o número de vítimas saltou de 308 para 497. A contaminação por minérios foi a violência mais incidente, com 195 casos, todos em Jacareacanga (PA), na Terra Indígena Munduruku, decorrentes do garimpo ilegal de ouro na Bacia do Rio Tapajós. Também cresceram contaminação por agrotóxicos (de 10 para 132), criminalização (de 46 para 51) e ferimentos (de 26 para 42). As principais vítimas foram indígenas, sem-terra, posseiros, seringueiros e quilombolas.

As manifestações no campo aumentaram de 253 para 284 no período. Os atos incluem marchas, protestos, romarias, bloqueios de rodovias e ocupações de prédios públicos, com reivindicações como demarcação de terras indígenas, fim dos agrotóxicos, contra a mineração e a privatização das águas e melhores condições de trabalho.

Cecília Gomes afirmou que a CPT não apenas documenta os conflitos, mas atua junto às comunidades na resistência e na construção de políticas públicas para o campo.

Análise WeekNews: A queda expressiva nos assassinatos, de 27 para 6, pode indicar algum avanço na proteção de lideranças e comunidades, mas o aumento dos conflitos e das violências, especialmente por agrotóxicos e minérios, sugere que a disputa por terra segue intensa. O crescimento das contaminações – que passaram a ser registradas em larga escala – tende a ampliar a pressão por fiscalização e políticas de saúde no campo. A concentração de casos no Maranhão e no Pará reforça a necessidade de atenção específica a essas regiões.

Fonte: Agência Brasil.

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