
A uma semana do primeiro dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), mulheres que adiaram o sonho da faculdade por causa da família e do trabalho encontram em cursos pré-vestibulares populares um caminho para retomar os estudos. É o caso de Zélia José dos Santos, de 72 anos, dona de casa que se inscreveu no exame para tentar ingressar no curso de serviço social.
“Não tive oportunidade quando nova. Tive família, precisava cuidar dos filhos, trabalhava fora de casa. Agora, resolvi cuidar de mim”, contou ela à Agência Brasil. Persistente, Zélia já prestou o Enem por vários anos e, em 2026, buscou o apoio do pré-vestibular do Sindicato dos Servidores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Sintuperj). “Estou ansiosa para domingo, mas estou mais preparada”, afirmou.
Segundo Carlos Eduardo Silva de Lourdes, responsável pelo setor administrativo do curso, mulheres mais velhas correspondem a 20% a 30% dos estudantes. O cursinho popular cobra mensalidade de R$ 162 do público geral, oferece 10% de desconto para servidores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e bolsas integrais para alunos em situação de vulnerabilidade. Além do atendimento pedagógico e psicossocial, distribui cestas básicas a alunos e voluntários, arrecadadas nos aulões mensais.
A coordenadora pedagógica Raíssa Tabajara destaca que o trabalho vai além da transmissão dos conteúdos do exame. “Temos projetos externos para fortalecer a base de alunos que não estudam há muito tempo. A gente não dá só aula, mas também oferecemos atendimento psicossocial, com aulas de autocuidado”, disse.
Outra aluna na mesma situação é a técnica de enfermagem Paula Cristina dos Santos, de 55 anos, que também tenta há muito tempo uma vaga no ensino superior. Ela conta que foi mãe na adolescência e precisou se dedicar à família e ao trabalho. “Eu consegui uma nota para fazer fisioterapia, mas o que eu quero é medicina. Quero continuar na saúde. É um desafio grande, pela idade, pela doença de fibromialgia que me incapacita muito. Mas nunca é tarde para sonhar”, relatou.
Prova e dicas de redação
Neste domingo (8), os participantes do Enem responderão a 90 questões objetivas de linguagens e ciências humanas, todas de múltipla escolha, além de produzir uma redação. Professora de redação do pré-vestibular do Sintuperj, Érika Rodrigues recomenda que a coerência seja um dos pilares da argumentação. “A gente recomenda ler bastante, ter repertório sociocultural. Mas não basta só citar esse repertório, tem que relacionar com esse argumento. Essa é uma das dificuldades que os alunos têm, mas, se eles treinarem, conseguem”, afirmou.
No curso popular no campus Maracanã, a professora trabalhou ao longo do ano eixos temáticos como tecnologia, cidadania, meio ambiente e os campos social e político. “A tecnologia é uma das apostas desse ano, porque vivemos um momento de alerta. O tema mexe não só com a interpretação de texto, mas também com a inferência daquela informação. Alertamos os alunos a terem cuidado com a desinformação. Um dos pilares da interpretação do texto é reconhecer uma desinformação”, disse Érika.
Criado em 1998 por um grupo de servidores interessados no próprio crescimento profissional, o Pré-Vestibular Sintuperj abriu depois vagas para a comunidade externa e já aprovou mais de 2 mil alunos em universidades públicas federais e na própria Uerj.
Análise WeekNews: A experiência do Sintuperj mostra que cursinhos populares cumprem uma função que vai além da preparação para o exame, ao combinar mensalidade reduzida, bolsas integrais e atendimento psicossocial. O perfil dos alunos descrito pela coordenação e os relatos das duas entrevistadas indicam que esse tipo de iniciativa tende a alcançar justamente quem interrompeu os estudos por obrigações familiares e de trabalho, público que dificilmente seria atendido apenas por cursos preparatórios tradicionais.
Fonte: Agência Brasil.
