
Um levantamento divulgado por uma associação do setor audiovisual mostra que, na produção cinematográfica brasileira, 69,6% dos profissionais são brancos e 29,3% são negros. O dado integra uma carta da entidade que destaca a persistência da desigualdade racial no cinema, mesmo diante de uma maior visibilidade de obras com artistas negros em premiações como o Oscar.
Segundo o documento, 94% dos filmes que receberam recursos federais foram dirigidos por pessoas brancas. A presidente da associação, Tatiana Carvalho, afirma que, entre as produções com mais de R$ 5 milhões de verba pública, mais de 90% têm direção de pessoas brancas. “Isso indica o que majoritariamente a população brasileira está assistindo”, diz.
A entidade também aponta que profissionais negros estão concentrados em funções técnicas e mais sujeitos à menor remuneração, à informalidade e à menor proteção trabalhista. Por isso, defende mecanismos de diminuição da desigualdade racial e de gênero na composição das equipes. “A carta propõe alterações e melhorias no que já existe de política pública. Cinema negro é cinema brasileiro. Defendemos políticas afirmativas do setor e uma perspectiva menos excludente”, argumenta Tatiana Carvalho.
A associação reconhece avanços proporcionados pela Lei Paulo Gustavo e pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, ambas voltadas ao financiamento da arte brasileira. Levantamento da entidade indica que 58% dos festivais com foco em obras dirigidas por profissionais negros e realizadores negros tiveram participação direta desses incentivos no ano passado. O documento também aponta que 83% das obras audiovisuais dirigidas por pessoas negras no Brasil foram produzidas após 2010.
A pesquisadora avalia que a organização da cultura no país melhorou com a reativação do Conselho Superior de Cinema e com o Comitê Gestor do Fundo Setorial Audiovisual. Ela cita ainda a maior exposição de filmes brasileiros em eventos internacionais, com prêmios como o Oscar, e a criação do Tela Brasil, plataforma gratuita de filmes brasileiros, como iniciativas que ajudam na formação de público.
Tatiana Carvalho critica, porém, a ausência de uma legislação de proteção ao cinema local semelhante à dos Estados Unidos. “Quando a gente fala em defender 20% de cota de tela nos cinemas, há uma gritaria falando que é censura de cinema internacional”, afirma. Para ela, a legislação é “muito tímida” em relação à proteção do cinema brasileiro e Senado e Câmara precisam elaborar leis mais fortes para proteger o audiovisual. “São 200 filmes por ano e a população brasileira não tem acesso a isso”, diz.
A carta da associação defende a ampliação das ações afirmativas e apresenta o conceito de “empresa vocacionada para reparação histórica”, que seriam as que têm metade ou mais do quadro societário de pessoas negras. Atualmente, a cota de produção é de 25% de verbas com ação afirmativa no mínimo, sendo 15% para negros, 5% para indígenas e 5% para pessoas com deficiência.
A presidente da entidade relata que a associação começou a receber reclamações cotidianas sobre má aplicação da Lei Paulo Gustavo. Segundo ela, houve relatos de fraudes, com pessoas negras assinando cartas de anuência e sendo descartadas do processo quando o dinheiro chegava à produtora, além de casos de pessoas que se declararam negras sem serem. A entidade defende bancas de heteroidentificação, como ocorrem nas cotas estudantis universitárias.
Tatiana Carvalho também defende que a legislação estimule mais produções cinematográficas negras em sala de aula. “Isso é o que há de mais importante. Vai ao encontro de outra legislação que determina o ensino de cultura africana brasileira e história, além de cultura indígena no contexto da educação básica”, afirma. Segundo ela, exibir filmes em sala de aula pode contribuir para ações de contraturno na escola integral e para a integração das escolas com as comunidades nos finais de semana, formando uma nova geração de público.
Análise WeekNews: Os números apresentados pela associação indicam que o aumento da presença de artistas negros em premiações e a existência de políticas de fomento não se traduzem automaticamente em equidade na cadeia produtiva. A concentração de recursos federais em direções brancas e a permanência de profissionais negros em funções técnicas com menor remuneração sugerem que a desigualdade estrutural do setor ainda não foi revertida pelos mecanismos atuais. A defesa de bancas de heteroidentificação e de cotas de tela aponta para uma discussão sobre a eficácia da aplicação das verbas públicas e sobre a necessidade de instrumentos de fiscalização e proteção legal.
Fonte: Agência Brasil.
