
Uma pesquisa divulgada pela Pastoral Carcerária Nacional e pela Assessoria Popular Maria Felipa revela que as famílias de pessoas presas no Brasil gastam, em média, cerca de 70% de um salário mínimo por semana para visitar detentos. O custo anual chega a R$ 4,33 bilhões, valor que, segundo os pesquisadores, deveria ser assumido pelo Estado, mas é transferido para os familiares.
O estudo, intitulado “A pena sem sentença: famílias, gênero e a expansão silenciosa do poder punitivo”, ouviu 2.706 pessoas, com margem de erro de 3%. Os dados mostram que 94,1% dos visitantes são mulheres, sendo as esposas o grupo mais numeroso (30,3%). A maioria é preta ou parda (65,5%), tem entre 25 e 34 anos (32,6%) e ensino médio completo (31,9%). Para os autores, há uma “feminização e racialização do trabalho social” que sustenta o sistema penitenciário.
Os gastos incluem itens básicos de higiene, alimentação e vestuário, que deveriam ser fornecidos pelo Estado. Um kit com duração de 15 dias custa, em média, R$ 263,67, enquanto o semanal sai por R$ 293,52. Somando transporte, refeições e, em alguns casos, hospedagem, a visita quinzenal custa R$ 624,80 e a semanal, R$ 1.053,90. Considerando o salário mínimo de R$ 1.518,00 em 2025, as visitas semanais consomem 69,4% da renda familiar.
A pesquisa também aponta que 58,9% dos visitantes já sofreram constrangimentos ou violências, incluindo revista íntima (32,5%), exigência de documentos cartoriais e demoras de até três meses para cadastramento. Essas situações, classificadas como tortura institucional, afetam a saúde: 90,1% dos entrevistados relataram piora, sendo que 66,8% afirmaram consequências graves.
A advogada Fernanda Oliveira, cofundadora da Assessoria Maria Felipa, destacou que o adoecimento das mulheres é “produzido em escala industrial”, devido à socialização que as coloca como responsáveis pelo cuidado. A coordenadora nacional da Pastoral Carcerária, irmã Petra Silvia Pfaller, acrescentou que a distância entre as unidades prisionais e as famílias aumentou os custos e dificulta a ressocialização.
O sistema prisional brasileiro, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública do segundo semestre de 2025, tem 727.301 presos para 505.267 vagas, um déficit de 222.034. As visitas ultrapassaram 4,5 milhões no período.
Análise WeekNews: Os números revelam que o custo do encarceramento no Brasil é, na prática, compartilhado com as famílias, especialmente mulheres negras, que já enfrentam desigualdades estruturais no mercado de trabalho. A transferência de despesas essenciais para os visitantes não apenas amplia o impacto econômico da pena, mas também aprofunda a vulnerabilidade social dessas pessoas, o que sugere que o sistema prisional depende de uma rede de cuidado informal para funcionar.
Fonte: Agência Brasil.
