
O CineSesc, em São Paulo, exibe dentro do Festival Amor ao Cinema o filme “Arquivo Vivo”, dirigido por Vincent Carelli e Ana Carvalho. A produção brasileira de 2026 tem duração de 2h17min (137 minutos) e classificação indicativa livre.
A mostra coloca em evidência a trajetória de Carelli, indigenista e realizador audiovisual que, nos anos 1970, trabalhou na Funai e cofundou o Centro de Trabalho Indigenista (CTI) com um grupo de antropólogos. Foi também nessa década que ele conheceu Andrea Tonacci, com quem formatou o projeto Inter Povos para a Guggenheim.
Segundo o material que acompanha a mostra, Carelli já era reconhecido como um não indígena de confiança e chegou a ser convidado pelos xikrin a permanecer na aldeia após concluir uma formação de indigenista em Brasília. O período da ditadura, porém, impôs impedimentos à sua atuação junto ao movimento indígena. O argumento militar, conforme relata o próprio Carelli, era que “não daria certo, por ele ser muito amigo dos indígenas”.
“Na época da ditadura, as ONGs foram demonizadas. E as associações indígenas, nem a Funai [então Fundação Nacional do Índio] queria ouvir falar disso!”, lembra o cineasta.
A ideia de colocar o vídeo a serviço dos próprios povos indígenas ganhou forma com Tonacci, que já idealizava usar a tecnologia para encurtar distâncias entre comunidades. O VHS foi o elemento que faltava para transformar indígenas também em cineastas. Em 1986, com essa proposta, começava oficialmente a história do Vídeo nas Aldeias, estruturado por Carelli com sua esposa, a antropóloga Virgínia Valadão.
O projeto não foi interrompido nem durante a pandemia da covid-19. Para Carelli, diante da negligência do governo de Jair Bolsonaro, o registro se tornou ainda mais importante para documentar o que, para muitos indígenas, foi seu ciclo derradeiro.
“A questão da apropriação da imagem, afinal, tem várias dimensões. Uma é a que se tem consigo mesmo. Mas tem também a de memória de vidas que estão sofrendo um momento muito intenso de cotidiano, de novidades. Os velhos se vão”, pondera.
Além de realizador audiovisual e educador na área, Carelli foi jornalista e repórter fotográfico freelancer das revistas IstoÉ, Repórter Três e do jornal Movimento. Atuou ainda como editor fotográfico e pesquisador do Projeto Povos Indígenas no Brasil do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que deu lugar ao Instituto Socioambiental (ISA).
O indigenista levanta uma questão que, segundo ele, provoca melindres até hoje: “Existe instituição do Estado brasileiro comandada, com autonomia, por povos indígenas? Qual é a relação dos museus? É quase uma utopia. E eles não podem ser alienados das imagens, têm que ter acesso a elas.”
Análise WeekNews: A exibição de “Arquivo Vivo” no Festival Amor ao Cinema reúne em uma única sessão a trajetória de Carelli e a história do Vídeo nas Aldeias, projeto iniciado em 1986 e mantido sem interrupção desde então. O filme, dirigido em parceria com Ana Carvalho, leva ao público de São Paulo um debate que o indigenista coloca como central: o acesso dos próprios povos indígenas às imagens produzidas sobre eles. A programação do CineSesc, ao abrir espaço para essa produção, amplia a circulação de uma discussão que Carelli situa como ainda em aberto no país.
Fonte: Agência Brasil.
