Histórias de perda por falta de saúde diminuem com novo modelo de atendimento em reserva do Amazonas

Histórias de perda por falta de saúde diminuem com novo modelo de atendimento em reserva do Amazonas
Fonte da imagem: Agência Brasil


A morte da mãe durante o parto da irmã, há 38 anos, ainda ecoa na memória de Francisco Solivan Peres de Araújo, hoje presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), em Carauari, no interior do Amazonas. “Deu uma hemorragia. Na época, não tinha possibilidade nenhuma de chegar na cidade”, relembra ele, que perdeu a mãe quando tinha apenas 2 anos. O relato de Solivan é um entre muitos que marcam a história da região, onde a distância entre as comunidades ribeirinhas e a zona urbana – onde se concentra a estrutura fixa de saúde – transformava emergências em tragédias.

Carauari é um dos maiores municípios do Brasil em extensão territorial, com mais de 25,7 mil quilômetros de área, banhado pelo Rio Juruá e cercado pela Floresta Amazônica. Para um ribeirinho chegar até a “cidade”, como chamam a área urbana, são necessárias horas ou até dias de viagem, dependendo do tipo de embarcação e das condições do rio – na seca, o percurso se torna ainda mais demorado. Até os anos 1990, a falta de qualquer atendimento próximo era a regra, e as mortes por causas evitáveis eram frequentes.

A prefeitura de Carauari instalou, ainda nos anos 1990, um sistema de lanchas de resgate para emergências, mas a imensa distância ainda provoca demoras críticas. Adriana da Silva e Silva, moradora da comunidade de São José do Nachiqui, foi picada por uma cobra em janeiro de 2019. “A gente chamou o resgate, só que no momento não estava disponível. Demorou mais de 24 horas para chegar o atendimento”, conta. Sem soro antiofídico disponível, sua perna inchou a ponto de ficar irreconhecível. Foram necessárias quatro cirurgias para salvar o membro, que quase foi amputado em Manaus. Hoje, Adriana convive com sequelas: perda de tato ao andar, dificuldade para esticar ou encolher a perna e inchaços frequentes.

Raimundo Viana da Cunha, ex-morador da comunidade Mandioca e hoje colaborador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), carrega a perda do irmão, ocorrida em 1994. “A gente dependia de regatão [comerciante ambulante que navega pelos rios] para fazer um deslocamento até a sede do município. E o meu irmão esperou uma semana doente sem ter nenhum barco passando”, recorda. Quando a mãe conseguiu carona, a prioridade do regatão era vender mercadorias, e a viagem até a cidade levou mais uma semana. “Depois de duas semanas, meu irmão foi atendido e não teve mais condição de fazer nada – e ele veio a óbito”, diz Raimundo, que até hoje desconhece a causa exata da morte, apenas que o irmão reclamava de dores na barriga.

A situação começou a mudar a partir de 1997, com o fortalecimento de organizações de base e um olhar mais atento do poder público para o Médio Juruá. Mesmo assim, o desafio de levar saúde a um território de 633 km de extensão, onde vivem 31 comunidades e mais de 409 famílias na RDS Uacari, é imenso. Essas famílias dependem do extrativismo sustentável – manejo do pirarucu, látex da seringa, andiroba, açaí e ucuba – e da agricultura familiar, atividades que contribuem para a preservação da floresta. Para elas, deixar o território em busca de atendimento não é uma opção desejável.

O secretário de Saúde de Carauari, Manoel Brito, explica que a prefeitura mantém o serviço de resgate por lanchas, que custa entre R$ 40 mil e R$ 45 mil mensais, além de Unidades Básicas de Saúde (UBS) fluviais que percorrem as comunidades de forma eventual. “A prefeitura sozinha, com recursos próprios, não consegue instalar unidades básicas de saúde pelas comunidades. A arrecadação do município não comporta isso”, afirma, destacando a importância de parcerias com o terceiro setor. Carauari tem cerca de 28 mil habitantes e orçamento estimado em R$ 142 milhões para 2026.

O Ministério da Saúde, em nota, reconheceu a relevância da atuação de organizações da sociedade civil e informou que ampliou os investimentos para populações ribeirinhas. Neste ano, estão sendo aplicados R$ 500 milhões para a implantação de Equipes de Saúde da Família Ribeirinha, que podem ser requisitadas por prefeituras de 2.690 municípios – antes, apenas 784 municípios da Amazônia Legal e do Pantanal tinham acesso. Atualmente, existem 332 equipes e 71 UBS Fluviais em operação.

Uma parceria recente entre a prefeitura de Carauari, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umane, com gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio técnico da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas, resultou na instalação de dois pontos de saúde nas comunidades de Bauana e Campina. O projeto, chamado SUS na Floresta, prevê atender 56 comunidades ribeirinhas e beneficiar cerca de 4,7 mil pessoas com atenção primária. Cada unidade conta com consultórios para atendimentos presenciais e remotos, sala de triagem, consultório odontológico, internet, equipamentos de telessaúde e áreas para permanência das equipes, integrados ao SUS.

Para Solivan, a iniciativa representa a realização de um sonho antigo. “Se naquela época tivesse esse sonho que estamos realizando hoje, que é um ponto de saúde [nas comunidades] e que dá a possibilidade de garantir uma vida melhor para os ribeirinhos, não tenho dúvida em Deus que minha mãe ainda estaria viva”, afirma. As novas unidades representam um passo concreto para reduzir as distâncias que, por décadas, transformaram problemas de saúde em histórias de perda.

A reportagem da Agência Brasil percorreu cerca de 35 horas de lancha expressa de Manaus até Carauari, depois mais quatro horas até a comunidade de Bauana e outras quatro até a região de Campina, para conhecer de perto a realidade das comunidades e ouvir relatos que, esperam os moradores, se tornem cada vez mais raros.

Fonte: Agência Brasil.

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