
A poeta Orides Fontela, homenageada da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), já demonstrava a força de sua poesia desde os primeiros versos escritos na adolescência, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. A concisão e o rigor da linguagem, marcas que definiriam sua obra, já estavam presentes naqueles poemas iniciais, que tratavam de reflexões profundas com poucas palavras.
O poema Elegia, publicado no jornal local O Município em 1965, chamou a atenção de Davi Arrigucci Jr., conterrâneo de Orides que na época estudava letras e hoje é crítico literário e professor de teoria literária da Universidade de São Paulo (USP). Foi ele quem incentivou a poeta a reunir os poemas em livro e a se mudar para a capital paulista. “Ele encontrou com Orides, casualmente, ali na cidade e falou: ‘Você tem mais coisa? Deixa eu ver’. E ela mostrou uma pasta de poemas dela. Ele achou aquilo muito bom, levou para São Paulo e deu na mão de críticos”, contou Cristina Yamazaki, editora da Hedra, responsável pela recente reedição das obras da poeta.
Desde o início, Orides teve entusiastas como o crítico literário Antonio Candido e a filósofa Marilena Chaui, que depois seria sua professora no curso de filosofia da USP. Filha de um marceneiro e de uma dona de casa, foi alfabetizada pela mãe. “Ela surgiu como uma poeta pronta. Ela tem cinco livros, e não é que ela tenha uma progressão entre os livros. Desde o primeiro livro, que são esses poemas de juventude, ela já era reconhecidamente uma grande poeta, apesar de não ser conhecida do grande público”, destacou Cristina em entrevista à Agência Brasil.
Com poucas palavras, Orides construía poemas de múltiplos significados e densidade poética e filosófica. Antonio Candido usou a expressão “parcimoniosa opulência” para descrever sua capacidade de gerar muito significado com economia de linguagem. “Ela vai depurando a linguagem até chegar ao âmago da palavra, ela vai fazendo muitas experimentações até levar a gente para um núcleo do silêncio. O silêncio é muito importante na obra dela. Ele faz parte, ele também constitui os poemas”, explicou Cristina. “Ela tem um poema tão bonito em que ela fala de saber de cor o silêncio. É isso, ela não quer profanar o silêncio com quaisquer palavras. E ela é muito precisa”, acrescentou.
A formação em filosofia também se reflete em seus poemas. “Ela escreveu um poema chamado Kant (relido), em que ela faz uma leitura poética do Kant”, lembrou a editora. Cristina ressaltou que a poesia de Orides não incorpora elementos autobiográficos — sua escrita não era voltada para a dimensão pessoal.
Ao longo da carreira, Orides publicou cinco livros de poesia: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Com Alba, que tem prefácio de Antonio Candido, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Poesia. Para celebrar sua obra, a Hedra lançará três títulos durante a Flip: um livro de poemas ilustrado para crianças e jovens, uma coletânea inédita de escritos críticos e entrevistas, e uma nova edição revista e ampliada de sua biografia. A editora também detém os direitos das obras já publicadas e lançou novas edições de todas elas nos últimos meses.
Cristina Yamazaki contou que o trabalho de reedição envolveu a organizadora Ieda Lebensztayn e Augusto Massi, amigo e editor de Orides. “Fizemos uma pesquisa de manuscritos, datiloscritos, materiais que a gente pudesse incluir nas obras. Encontramos, por exemplo, anotações do Antonio Candido em um poema que ela incorporou depois. Ela teve leitores superespeciais”, disse. A equipe também conseguiu imagens pouco conhecidas, de infância e juventude, para evitar a repetição dos retratos da década de 1990 que costumam circular. “Mas sem carregar demais as obras porque também não são obras para críticos, é para um grande público”, explicou.
Uma curiosidade é que alguns originais de Orides estavam espalhados em diversas mãos. “Isso porque, como às vezes ela não encontrava editora para publicar os poemas, ela fazia cópias e eles circulavam entre algumas pessoas. Então, algumas pessoas têm esses originais ou têm cópias”, relatou Cristina. “Cada livro dela era muito pensado, por isso que a Hedra quis fazer essas edições avulsas, que nunca mais tinham sido publicadas [desde a morte da escritora]. Só durante a vida da Orides, ela publicou esses cinco livros que tiveram circulação pequena, em edições simples”, acrescentou. Após sua morte, houve apenas publicações com a poesia completa reunida, diferente do que ela idealizou em vida.
Para Ieda Lebensztayn, o poema Caleidoscópio, do livro Helianto, é central para entender a poesia e a vida de Orides. “Etimologicamente, a palavra caleidoscópio é o olhar em busca de uma forma de beleza. Kalós, como na palavra caligrafia, significa belo; eidos é forma, figura; e skopeîn, como em telescópio, denota ver, observar”, analisou. A definição, segundo Ieda, é a própria ideia de poesia para Orides, feita com imagens de espelhos, estrelas, luzes e silêncios.
Os rótulos e estereótipos atribuídos a Orides muitas vezes ofuscaram o valor literário de sua obra. O biógrafo Gustavo de Castro critica essa narrativa que deslocava o foco da poeta para uma personagem quase folclórica. Cristina Yamazaki relatou que a história de vida de Orides, marcada por restrições financeiras, “acabou, às vezes, ganhando mais notoriedade do que a obra dela. Acho que isso atrapalhou [um reconhecimento mais amplo], inclusive, na época. Ser mulher, poeta, pobre, não se encaixar num padrão da sociedade: isso tudo prejudicou muito ela, o que não acontecia com os homens da literatura”, afirmou. Para ela, a questão de gênero foi um fator prejudicial. “Tem os ‘poetas malditos’ [homens] que são admirados pela obra. No caso dela, num certo momento, a imprensa deu muito foco à mitologia em torno da vida dela e não pela obra.”
A escolha da curadora Rita Palmeira de homenagear Orides Fontela na Flip foi celebrada por admiradores e profissionais. “Foi uma escolha muito bonita para tornar a Orides conhecida, porque ela é muito conhecida entre os poetas. É como se ela fosse a poeta entre os poetas”, disse Cristina, citando O Nervo do Poema: Antologia para Orides Fontela (editora Relicário), que terá segunda edição lançada durante a Flip.
A programação de lançamentos inclui: quinta-feira (23), às 15h, na Casa Da Árvore, o lançamento de Pelos Olhos de Orides Fontela, com Augusto Massi e Cynthia Cruttenden; quinta-feira (23), às 20h30, na Casa de Cultura, Ressonância Orides, com lançamento de O Nervo do Poema; sexta-feira (24), às 19h, na Casa MinC, Reeditando Orides + Sarau Orides, com Augusto Massi, Cristina Yamazaki, Maíra Nassif e Patrícia Lavelle; e sábado (25), às 12h, na Casa de Cultura, Poesia exemplar: Orides e Brecht, com Tercio Redondo e Ivan Marques, e lançamento de Conversas: Escritos e Entrevistas de Orides Fontela. A Flip segue até domingo (26), com mesas oficiais e atividades gratuitas em casas parceiras pela cidade.
Fonte: Agência Brasil.
