
No final dos anos 1970, em plena ditadura militar, um grupo de jovens poetas baianos decidiu ocupar uma praça pública em Salvador para declamar versos e enfrentar a repressão. Dessa iniciativa nasceu o movimento Poetas na Praça, que reuniu estudantes e transformou a poesia em um marco de resistência política, cultural e social. A história do grupo foi lembrada durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), que ocorre até domingo (9) na capital baiana.
Uma das dez fundadoras do movimento, a poeta Ametista Nunes, que no início era a única mulher do grupo, contou à Agência Brasil que tudo começou em 1979, em um contexto de forte censura. “Em 1979, quando a gente começou, era exatamente na época da ditadura, momento em que poesias eram proibidas, músicas eram proibidas e os artistas eram todos proibidos, exilados ou mortos. E a gente também sabe a história de muitos que foram assassinados ou desaparecidos”, disse.
Segundo Ametista, o movimento praticava uma espécie de desafio às autoridades da época, pois as apresentações aconteciam justamente em frente ao prédio onde fica a sede da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, na região da Praça da Piedade, uma praça histórica de Salvador onde, conforme ela lembrou, “os escravos foram enterrados”. “Lá a gente recitava [os versos] e eram só poesias de subversão. Era de provocação mesmo, a gente provocava bastante”, ressaltou.
Em entrevista à Agência Brasil, Ametista destacou que a poesia, naquele período, serviu como importante instrumento de resistência, e defendeu que a arte continua sendo fundamental nos dias de hoje. “Ou a gente entra com a arte nesse processo social ou nunca vai mudar as mentes. Nem os corações”, afirmou, logo após acompanhar uma mesa realizada na Casa Motiva para discutir o legado do Poetas na Praça.
A poeta Semírames Sé, uma das principais vozes femininas do movimento, também participou do debate na Flipelô e ressaltou que a provocação era uma característica constante do grupo. “A poesia foi sempre uma batalha, foi sempre nosso grito de utopia, o nosso grito de igualdade, fraternidade e comunhão. Foi assim que cheguei à Praça da Piedade”, contou.
Além de lutar pela democracia, os jovens poetas ajudaram a popularizar a poesia, destacou Douglas de Almeida, que integrou o movimento. “Antes, a poesia era inatingível. Mas o que é que esses poetas fizeram? Eles popularizaram esse gênero literário com uma linguagem mais coloquial, mais urbana, mais irônica e direta para os transeuntes lá da Praça da Piedade. Essa foi uma grande vitória do movimento”, avaliou.
Outra conquista apontada por Almeida foi o aspecto pedagógico e educacional. “A gente também fez um trabalho editorial porque grande parte das pessoas não tinha o hábito da leitura. Os poetas começaram a fazer antologias não apenas com seu poema autoral, mas com o de outros poetas como Manuel Bandeira ou Cecília Meireles. Então, de certa forma, a gente estava divulgando a poesia brasileira”, explicou. “Quando a população se acercava da praça, ela terminava tendo um mundo gigantesco. A praça tinha essa riqueza de levar poesia à população que não tinha nem o hábito de leitura”, completou.
O poeta também lembrou que o grupo não vivia apenas de poesia subversiva. “Mesmo revolucionários e que se dedicavam contra a ditadura e a censura, eles ainda tinham o tempo para fazer poemas de amor”, contou Almeida, que poetizou: “Quanto mais amor se gasta, mais bonito o amor brota”.
A Flipelô, considerada a maior festa literária da Bahia, chega neste ano à sua décima edição. A expectativa dos organizadores é de que mais de 250 mil pessoas possam aproveitar a programação cultural, que segue até o próximo domingo (9). A repórter e a fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade do evento.
Fonte: Agência Brasil.
