
A nova edição do premiado programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, vai ao ar na segunda-feira (27), às 23h, com o episódio “Tia Ciata: a matriarca do samba”. A atração mergulha na vida e no legado de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, ialorixá que se tornou referência fundamental na cultura negra brasileira. Baiana do Recôncavo, Ciata integrou o movimento de migração de mulheres para o Rio de Janeiro entre o final do século 19 e início do século 20, conhecido como “diáspora baiana”. Na então capital federal, ela se consolidou como liderança religiosa, humanitária e cultural, influência que, mais de cem anos após sua morte, em 1924, ainda ecoa em 2026.
O programa busca responder a lacunas históricas sobre a matriarca. Uma das principais controvérsias envolve a verdadeira imagem de Hilária. A historiadora e pesquisadora Angélica Ferrarez, que há anos estuda as “tias do samba”, questiona a autenticidade de um retrato feito na Bahia pelo fotógrafo alemão Rodolpho Lindemann. Ela argumenta que a data da foto não corresponde ao período em que Ciata ainda estaria na Bahia, já que ela se mudou para o Rio aos 22 anos, em 1876. “A gente tem algumas imagens que fazem referência a Tia Ciata, mas infelizmente a gente ainda não tem o rosto, sabe? A foto que represente essa figura central na história do Brasil, na história do Rio de Janeiro, na história social do samba”, afirma Angélica.
A bisneta e presidente da Casa de Tia Ciata, Gracy Mary Moreira, contesta essa visão. Ela lembra que a bisavó viajava frequentemente para a Bahia, pois era “mãe pequena” no terreiro de João Alabá, famoso babalaô africano e fundador do primeiro terreiro de candomblé do Rio de Janeiro. “Ela também cuidava de especiarias”, comenta Gracy. A bisneta destaca ainda que um antropólogo forense analisou a foto de Lindemann junto com outras imagens e fotografias de seu pai e de sua irmã para verificar a hereditariedade.
Outro ponto nebuloso é o número de descendentes de Tia Ciata e o patrimônio acumulado pela família. O inventário de Hilária, sob guarda do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, registra que quatro filhos dividiram três contos de réis após sua morte. “A gente sabe que era uma riqueza econômica que deu certa estabilidade para a família de Tia Ciata”, afirma Jéssica Costa, pesquisadora do Arquivo do Tribunal.
A casa de Tia Ciata, na extinta Rua Visconde de Itaúna, na Praça Onze, é um dos focos centrais do programa. Foi no famoso quintal que, possivelmente, ocorreu o nascimento de “Pelo Telefone”, primeiro samba registrado no país, em 1916, por Donga e Mauro de Almeida. “A casa dela era um núcleo da maior relevância da cultura do Rio de Janeiro, tanto do ponto de vista da religião como do ponto de vista da música popular urbana que estava se formando”, analisa o escritor e historiador Luiz Antônio Simas. A arquiteta Luciana Mayrink reconstituiu a planta do imóvel a partir de layouts e fachadas comuns da época. “As manifestações religiosas, elas aconteciam no terreiro que ficava localizado no fundo do terreno. O samba também acontecia na frente do galpão, que é o quintal. Então, esse quintal é um quintal protegido”, explica.
A influência de Ciata e de outras tias ilustres, como Tia Carmem, Tia Amélia e Tia Perciliana, perdura até hoje. O programa mostra esse paralelo no Cafofo da Tia Surica, em Madureira, na zona norte do Rio. Assim como na casa de Ciata, a cantora e matriarca da Portela promove festas com roda de samba no quintal. “Nós não vamos ser eternos. Então, os que estão vindo agora que deem continuidade. Porque dizem que o samba morre. O samba não morre, nem agoniza”, reflete Surica.
O Caminhos da Reportagem está no ar desde 2008 e, no final de 2025, ultrapassou a marca de 100 prêmios. O programa é exibido às segundas, às 23h, com reprise na madrugada de terça, às 2h30, e fica disponível no site, no YouTube da emissora e no aplicativo TV Brasil Play.
Fonte: Agência Brasil.
