
A cúpula do Brics realizada neste fim de semana em Nova Delhi, na Índia, divulgou neste sábado (12) uma declaração conjunta em que os países do grupo manifestam “profunda preocupação” com a escalada das tensões no Oriente Médio, criticam a imposição de tarifas unilaterais no comércio internacional e defendem maior representação de países em desenvolvimento no Conselho de Segurança da ONU.
O documento, intitulado “Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”, tem 35 páginas e 140 parágrafos. No parágrafo 28, os signatários afirmam: “Expressamos profunda preocupação com a contínua escalada das tensões no Oriente Médio/Ásia Ocidental e, recordando nossas respectivas posições nacionais, conclamamos ao exercício da máxima contenção, bem como à abstenção de ações que possam agravar ainda mais a situação.” O texto não cita diretamente os países envolvidos nem utiliza a palavra guerra — prática comum em documentos diplomáticos para viabilizar consenso.
A expectativa em torno da reunião envolvia justamente a posição do bloco sobre o conflito iniciado em fevereiro deste ano, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã sob o argumento de que o país desenvolvia armas nucleares, acusação que Teerã nega. Em retaliação, o Irã atacou os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, países alinhados aos EUA e também integrantes do Brics.
O Brics reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Juntos, os 11 países representam 39% da economia mundial, 48,5% da população do planeta e 23% do comércio global. Em 2025, a presidência do grupo foi exercida pelo Brasil, que sediou a reunião anual em julho, no Rio de Janeiro.
A cúpula de Nova Delhi contou com a presença do anfitrião, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, e dos presidentes Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Cyril Ramaphosa (África do Sul) e Masoud Pezeshkian (Irã). Os Emirados Árabes Unidos foram representados pelo príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan. O Brasil enviou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Reforma da ONU
Em outro trecho, a declaração defende a reforma do Conselho de Segurança da ONU “com o objetivo de torná-lo mais democrático, representativo, eficaz e eficiente, e de ampliar a representação dos países em desenvolvimento”. O conselho é o principal órgão da ONU encarregado de zelar pela paz e segurança no planeta e conta com 15 países, dos quais apenas cinco são permanentes e têm poder de veto: EUA, China, Rússia, Reino Unido e França.
O Brasil pleiteia um assento permanente há décadas. No documento, os países destacam a posição de China e Rússia: “China e Rússia, como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, reiteram seu apoio às aspirações do Brasil e da Índia de desempenhar um papel maior na ONU, incluindo seu Conselho de Segurança.” O texto não menciona especificamente a entrada brasileira como membro permanente.
Tarifas e moedas locais
Os signatários também manifestaram “sérias preocupações com o aumento de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais que distorcem o comércio e são incompatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio”. O documento não cita nominalmente os Estados Unidos, país que aplica tarifas a parceiros comerciais desde que Donald Trump assumiu a Presidência, em 2025. China e Índia, assim como o Brasil, estão entre os principais alvos do tarifaço americano.
Sobre pagamentos internacionais, a declaração aponta que os países caminham para soluções práticas de mecanismos eficientes de pagamentos transfronteiriços em moedas locais, sem mencionar a criação de uma moeda específica do Brics ou proposta de substituição do dólar.
No parágrafo 15, os signatários assinalam que erradicar a pobreza em todas as suas formas e dimensões, incluindo a extrema, “é o maior desafio global e requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável”. O documento registra ainda a proposta de Brasil e África do Sul para estabelecer um painel internacional sobre desigualdade.
Análise WeekNews: A declaração de Nova Delhi mantém o padrão diplomático do Brics de evitar confrontação direta e menções nominais a países em pontos sensíveis, o que permite acomodar posições distintas entre membros com alinhamentos internacionais divergentes, como Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O apoio explícito de China e Rússia à maior participação de Brasil e Índia na ONU reforça o tema da reforma do Conselho de Segurança, mas o texto não avança além do respaldo já conhecido. No campo comercial, a crítica a medidas tarifárias unilaterais, sem citar os Estados Unidos, indica que o grupo busca preservar coesão diante de pressões externas, enquanto a menção a pagamentos em moedas locais sinaliza cooperação prática, sem sinalizar ruptura com o dólar.
Fonte: Agência Brasil.
