
Em um sábado marcado pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e também pelo Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, a ativista e pesquisadora Angela Davis participou da programação paralela da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O evento, público e gratuito, ocorreu no Sesc Caborê e teve mediação da jornalista Flávia Oliveira. Davis aproveitou a ocasião para criticar a gentrificação e o racismo ambiental na cidade histórica, além de exaltar o legado de intelectuais brasileiras como Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez.
“Nós podemos sentir a presença dos ancestrais aqui nesse lugar, que tiveram papel fundamental durante o período da escravização”, afirmou a ativista sobre Paraty, palco do festival literário. Para ela, a luta do movimento negro tem uma dimensão cultural que estava sendo celebrada no evento. “Há algo sobre a natureza da música, da arte e da literatura que nos permite alcançar dimensões que não são alcançáveis de outro modo”, disse.
Davis denunciou o processo de gentrificação que atinge comunidades pobres em Paraty. “Queria falar sobre a gentrificação que está acontecendo em comunidades pobres aqui em Paraty. E também sobre o racismo ambiental. Os jovens nos falam que estão preocupados com o meio ambiente, que eles não têm futuro. Eles não terão futuro para viver neste planeta. Aqui em Paraty, tentam criar meios para ganhar mais lucro, tirando as pessoas das suas terras, das terras dos seus ancestrais”, declarou. A ativista relatou que conversou com a própria comunidade local e destacou o papel da literatura em influenciar e promover mudanças.
A mesa de conversa, que originalmente contaria com a presença do nigeriano Wole Soyinka, primeiro africano a vencer o Nobel de Literatura, não pôde contar com ele por questões de saúde. Davis lamentou a ausência e agradeceu a presença da escritora mineira Conceição Evaristo, que estava na plateia. “É um prazer que ela esteja aqui presente. Muito obrigada pela sua literatura tão bela”, disse, equiparando Conceição à cantora Nina Simone e à escritora Toni Morrison, ambas norte-americanas.
Ao comentar o conceito de “escrevivência”, criado por Conceição Evaristo, Davis afirmou que demorou muito para que se reconhecesse a necessidade de pessoas negras contarem e compartilharem suas próprias histórias. “Toni Morrison nos mostrou que a experiência branca não é universal”, afirmou, referindo-se à primeira mulher negra a receber um Prêmio Nobel de Literatura, em 1993.
A ativista também homenageou a brasileira Beatriz Nascimento. “Quando ela falou ‘eu sou atlântica’, ela emitiu o sentimento que nos chega a todos, que nos faz sentir parte de um mundo gigantesco”, disse. Davis contou que o internacionalismo foi sua primeira iluminação e narrou sua experiência na França, onde esperava encontrar igualdade, liberdade e fraternidade, mas descobriu a revolução argelina. “Os argelinos estavam sob ataque da polícia francesa, então eu descobri que eu poderia estar em solidariedade com as pessoas na França, que eu poderia ser parte de algo maior, que é o que Beatriz Nascimento diz quando ela fala ‘eu sou atlântica’.”
Outra pensadora brasileira lembrada foi Lélia Gonzalez, de quem Davis disse “eu amo a Lélia Gonzalez”. Ela destacou o conceito de Amefricanidade, que reconhece a luta negra em qualquer parte do mundo como indissociável da luta dos povos indígenas. “Eu gostaria de dizer que a Lélia Gonzalez é uma crítica do capitalismo, algo que precisamos fazer na primeira era dos trilionários, especialmente porque temos bilionários e trilionários que estão explorando a terra, não se preocupam com nada mais do que fazer dinheiro sem pensar nas consequências”, criticou.
Davis também abordou temas como a ascensão de governos autoritários, a redução da jornada de trabalho e a inclusão de pessoas negras nas universidades. “Fascismo é uma coisa que está emergindo na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, mas não entre o povo”, afirmou, citando as eleições no Brasil e a necessidade de não permitir que candidatos alinhados ao fascismo cheguem ao poder. Sobre a redução da jornada, ela disse que poderia permitir mais tempo de lazer e acesso à cultura, mencionando experiências na Europa. Quanto às universidades, lembrou que, em sua primeira visita ao Brasil, havia poucos negros nas instituições e celebrou as mudanças palpíveis que viu, como na Bahia, mas alertou: “Nós conquistamos essas vitórias, mas não nos acomodemos com essas vitórias. Temos que continuar lutando.”
A ativista rememorou o período em que foi presa sob falsa acusação de conspiração, sequestro e homicídio, destacando o poder da luta coletiva. “Eu digo que eu não fiz muito, eu estava sentada na prisão. As pessoas estavam nas ruas gerando o movimento que impediria que aqueles homens que estavam no poder tomassem essa decisão [pela pena de morte]”, disse, referindo-se à mobilização mundial que impediu sua execução. Ela afirmou que a experiência na prisão foi um presente que moldou sua vida e seu trabalho.
Davis também falou sobre a violência contra a mulher, distinguindo a violência íntima daquela cometida pelo Estado. “Vamos pensar também na violência do Estado, as conexões entre a violência íntima e a violência contra mulheres que estão encarceradas, por exemplo, as mulheres sujeitas a violência policial”, disse. Ela lembrou a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, e agradeceu publicamente: “E eu quero dizer obrigada a Marielle. Muito obrigada, Marielle Franco.” Davis destacou que mulheres negras e mulheres trans negras sofrem mais violência de gênero, indicando a necessidade de quantificar esse fenômeno.
Por fim, a ativista mencionou sua participação na luta em defesa da Palestina desde a década de 1960 e expressou otimismo quanto às mudanças possíveis. “Uma das vantagens de a gente ficar velha é que a gente acaba reconhecendo que as coisas podem mudar. Eu digo isso porque, por um longo período, parecia que seria impossível a opinião pública mundial ser contrária ao Estado de Israel”, afirmou.
Fonte: Agência Brasil.
