
Uma pesquisa da Rede Katahirine com 60 cineastas de 40 povos indígenas mostra que a dificuldade de acesso a editais de fomento é uma das principais barreiras enfrentadas por realizadores indígenas no Brasil. Segundo o levantamento, 71,7% das cineastas ouvidas já desistiram de concorrer a um edital. A burocracia é apontada como o principal motivo por 70% delas, seguida pelo não atendimento aos requisitos de participação (43%) e pela linguagem técnica dos concursos (41%).
O dado contrasta com o reconhecimento já alcançado por essas produções: 81,7% das cineastas entrevistadas já apresentaram filmes em mostras ou festivais. Filmes indígenas circulam por salas de cinema, mostras, festivais e plataformas de streaming, com prêmios e reconhecimento, mas, segundo a pesquisa, o financiamento segue como obstáculo para acessar esses espaços.
Mari Corrêa, idealizadora da Rede Katahirine, explica que os editais costumam exigir documentos que as cineastas têm dificuldade para fornecer, especialmente as que moram nos territórios. “Alguns editais exigem que o proponente tenha uma empresa, uma produtora, por exemplo. Não pode concorrer como pessoa física. Isso praticamente elimina a possibilidade de concorrerem ao financiamento”, afirma.
A cineasta e artista visual Larissa Tukano relata que não procura editais porque considera a linguagem difícil. “Pedem também uma experiência que não podemos comprovar. E a gente sente que esses concursos não nos contemplam”, diz.
Larissa defende que o modo de fazer cinema indígena tem características próprias. Ao filmar a própria comunidade, segundo ela, esses cineastas têm um olhar diferente e um respeito pelo tempo das pessoas filmadas. “Podemos conversar na nossa própria língua e isso torna a conversa mais íntima. Também sabemos o que pode e o que não pode ser filmado”, explica.
Mari Corrêa destaca que o cinema indígena segue uma lógica de produção própria. “Os roteiros não são feitos da forma ocidental de entender um roteiro. A presença do coletivo é muito forte e as decisões são tomadas de modo menos hierarquizado, dentro da comunidade”, afirma.
Os resultados da pesquisa serão apresentados no livro “Ler o vento, filmar o mundo: pesquisa-mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Brasil”, idealizado pela Rede Katahirine – Rede Audiovisual das Mulheres Indígenas. O lançamento ocorre nesta quinta-feira, 17 de setembro, às 14h, no Cine Brasília, em Brasília, com entrada gratuita. No mesmo dia e local será lançado também o livro “Diretrizes para um audiovisual ético com povos indígenas”.
Análise WeekNews: Os números da pesquisa indicam uma distância entre o reconhecimento artístico já obtido por cineastas indígenas em festivais e mostras e as condições exigidas pelos mecanismos de fomento. A exigência de pessoa jurídica e a linguagem técnica dos editais aparecem, na prática, como filtros que reduzem o universo de proponentes possíveis. O lançamento dos dois livros nesta quinta-feira, em Brasília, reúne em um mesmo evento o diagnóstico do mapeamento e um conjunto de diretrizes para produções audiovisuais com povos indígenas.
Fonte: Agência Brasil.
