
O primeiro longa-metragem da cineasta brasileira Sabrina Fidalgo, “O Projeto”, chega aos cinemas em 19 de novembro, durante o Mês da Consciência Negra. Codirigido pelo fotógrafo suíço Yvan Rodic, o documentário parte de inquietações íntimas dos dois realizadores para discutir séculos de colonialismo europeu e suas marcas ainda presentes, como o racismo e a supremacia branca.
A produção foi selecionada para a competição de documentários do 54º Festival de Cinema de Gramado e abriu o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. Também integrou a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e tem exibição prevista no 36º Cine Ceará nas próximas semanas.
A origem do filme está ligada à indignação com o assassinato de George Floyd por um policial nos Estados Unidos, em 2020, quando protestos contra a violência policial de base racista ocorreram em várias partes do mundo. “Falando como um homem branco, parecia impossível vivenciar este momento sem tomar uma atitude”, afirmou Yvan. Segundo ele, havia um senso de urgência, e a ideia inicial era que o documentário fosse mais focado em sua própria perspectiva.
A abordagem ensaística foi uma escolha deliberada. “Achamos que seria mais potente contar esse projeto colonial através de nossas histórias, de nossos corpos, nos aproximando do público”, disse Sabrina. “Senão, ia virar um documentário histórico, que não era o nosso intuito.” Entre as referências narrativas citadas pela diretora estão “Visages, Villages”, de Agnès Varda, e “Eu Não Sou Seu Negro”, de Raoul Peck.
Concebido durante a pandemia, o filme recorre à pesquisa histórica para sustentar as reflexões dos entrevistados e cita uma reportagem da Agência Brasil, “Racismo afeta saúde desde o nascimento até a morte”, como parte de sua fundamentação. A lista de entrevistados inclui a filósofa Djamila Ribeiro, o escritor Anderson França, o ativista Preto Zezé e a arquiteta e urbanista Joice Berth, além de artistas e lideranças que propõem formas de resistência.
Do outro lado do Atlântico, os diretores conversam com o historiador suíço Hans Fässler, a artista visual afegã Moshtari Hilal, a jornalista francesa Rokhaya Diallo e o geógrafo de origem tâmil, do Sri Lanka, Sinthujan Varatharajah.
A dimensão pessoal atravessa a obra. A imagem de Sabrina com um pregador de roupas apertando o nariz remete a uma experiência da juventude, quando uma vizinha sugeriu que ela usasse o objeto para afinar o nariz. A diretora, oriunda da classe média, relata ter sido submetida à discriminação por ser negra e do Sul Global durante os estudos em uma faculdade de cinema na Alemanha. A performance partiu de uma observação de Yvan, que se disse chocado ao conhecer a história.
A intelectual portuguesa Grada Kilomba aparece no documentário com uma crítica ao que descreve como ignorância da sociedade ocidental. “A sociedade ocidental vive um estado de absoluta ignorância, de não saber, de não ter que saber e não dever saber”, afirma ela no filme.
Sabrina também reflete sobre a própria trajetória. Com 20 anos de carreira, ela considera “Black Berlin”, de 2009, seu primeiro curta profissional, que circulou por festivais e recebeu prêmios. “Não sei se eu fosse uma diretora branca, já teria realizado meu primeiro longa”, declarou. Segundo ela, o projeto inicialmente seria um filme de Yvan, com sua participação como produtora e roteirista, até que as conversas sobre branquitude e privilégios levaram à inclusão de seu ponto de vista.
Os realizadores afirmam que o objetivo é alcançar o público branco, especialmente no Norte Global. “As pessoas pretas, o público não-branco, já sabe. Mas as pessoas brancas, no Norte Global, não”, disse Sabrina, que avalia que a discussão sobre racismo e decolonialidade está mais avançada no Brasil do que em países europeus. Yvan observa que, na Suíça, o debate sobre a responsabilidade do país no sistema colonial era inexistente no espaço público convencional até 2022, restrito a alguns pesquisadores.
Análise WeekNews: A escolha de estrear em 19 de novembro, no Mês da Consciência Negra, e a estrutura ensaística, que cruza as trajetórias dos dois diretores com entrevistas em Brasil e Europa, situam o documentário em um circuito de festivais já percorrido e o aproximam de um debate que os próprios realizadores descrevem como mais consolidado no Brasil do que em parte do continente europeu. Ao colocar lado a lado uma cineasta negra brasileira e um fotógrafo branco suíço, a obra organiza sua argumentação em torno do contraste entre os dois lugares de fala, elemento que os diretores apontam como central para atingir o público do Norte Global.
Fonte: Agência Brasil.
