
Pesquisa inédita divulgada nesta segunda-feira (17) traça um retrato detalhado da relação das mulheres brasileiras com as apostas online e revela que o fenômeno vai muito além do universo das apostadoras, atingindo também familiares e amigos. O levantamento “Mulheres e Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias”, conduzido pelo estúdio Clarice, Estratégia Latina e Instituto Ideia, mostra que quatro em cada dez mulheres (42%) já jogaram ou continuam jogando em plataformas de apostas online. Desse total, 20% apostam atualmente, com frequências variadas, e 22% já apostaram, mas não apostam mais.
Entre as 58% das mulheres que nunca apostaram, 12% afirmam ser afetadas por parentes ou amigos que apostam. Somando os dois grupos, mais da metade das mulheres no Brasil (54%) sente o efeito direto das bets, seja como apostadoras ou como impactadas pela prática de terceiros. A fundadora e diretora do estúdio Clarice, Beatriz Della Costa, explica que esta é a primeira pesquisa sobre o impacto das apostas que traz a perspectiva tanto da apostadora quanto de quem é afetado por quem aposta. “O impacto das bets vai muito além da crise financeira e afeta as estruturas familiares. Essa análise mostra que é possível pensar não apenas na contenção da crise, mas na prevenção da mesma”, afirma.
O levantamento também identificou diferenças de gênero no comportamento dos apostadores. Entre as mulheres que apostam, 30% costumam jogar mais à noite ou de madrugada do que em qualquer outro momento do dia, contra 20% dos homens. Além disso, 15% dos brasileiros acreditam que alguém que mora com eles faz apostas online escondido, sem contar a ninguém e acumulando dívidas. A pesquisa revela que as mulheres apostam sozinhas e escondem o jogo dos parentes por vergonha, o que gera culpa e coloca em risco as relações mais fundamentais.
A motivação para as apostas também difere entre os gêneros. Para a mulher, a aposta nasce menos como lazer ou entretenimento e mais como uma estratégia de administração financeira e sobrevivência doméstica, com o objetivo de cobrir despesas essenciais, como pagar boletos, comprar comida ou itens para os filhos. Beatriz Della Costa ressalta que as apostadoras não estão em busca de uma vida luxuosa. “Elas querem viver com um pouco mais de dignidade: para além das necessidades imediatas, querem levar os filhos ao cinema, pedir um delivery e pagar o material escolar sem se preocupar com a conta de luz no final do mês.”
A especialista aponta que as plataformas de apostas atuam em duas frentes para seduzir as mulheres: prometem uma vida digna, com contas pagas, mesa farta e presentes para os filhos, e associam as apostas ao dever do cuidado, papel historicamente atribuído às mulheres. “O desejo de cuidar da família e prover para os filhos é o mais explorado pelas casas de apostas”, afirma.
A pesquisa também revela que as mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos, e 72% das apostadoras têm filhos. No recorte racial, 45% das mulheres autodeclaradas pardas afirmaram que apostam ou já apostaram, contra 39% das brancas e 37% das pretas. Outro achado importante é que, para o apostador homem, ter filhos atenua o julgamento social, enquanto para a apostadora ocorre o contrário: com filhos, ela é mais culpada e mais questionada como provedora. Della Costa explica que isso reflete os papéis sociais historicamente atribuídos a homens e mulheres. “O homem é visto como alguém que está tentando sustentar a família – esse é um papel honrável que, em alguma medida, o redime. A mulher, por outro lado, sofre uma cobrança social muito maior enquanto gestora do lar: o papel fundamental atribuído a ela pela sociedade é o do cuidado, e por isso ela sofre um julgamento muito maior quando não cumpre a função designada.”
O impacto das apostas também atinge crianças e adolescentes. Embora as apostas sejam proibidas para menores de 18 anos no Brasil, elas chegam a esse público por influência de amigos, escola, redes sociais ou, em alguns casos, pelas próprias mães, que veem no jogo uma forma de companhia e vigilância. A pesquisa identificou que burlar a regra dos 18 anos passa, quase sempre, pelo uso do CPF de um adulto da casa, com ou sem consentimento.
As mulheres impactadas por um familiar apostador são as que mais percebem a violência, relatando comportamentos agressivos, xingamentos e perda de controle dos companheiros quando perdem. Entre os efeitos declarados estão conflitos familiares (24%), perda de confiança (24%), desgaste emocional (21%) e mudança na qualidade de vida (12%). Além disso, 40% dos impactados acreditam que as apostas afetam a capacidade da pessoa viciada de trabalhar ou gerar renda, sendo 36% entre as mulheres e 45% entre os homens.
A pesquisa também revela que 7% das mulheres apostadoras já pegaram dinheiro emprestado com agiotas para apostar, e 8% das mulheres impactadas declaram que elas próprias ou alguém próximo precisou fazer empréstimo com agiotas, como filhos endividados, aumentando a sensação de insegurança nos lares.
Em relação ao perfil dos jogos, cerca de metade das apostadoras (49%) jogam em cassinos online, como roleta, Tigrinho e caça-níquel; 29% em jogos de sorte instantânea, como crash games (Aviator) e raspadinhas; e 26% em bets de futebol, atraídas pelo resultado e ciclo imediatos de ganho ou perda.
O estudo identificou que as plataformas capturam o imaginário feminino por três meios: redes de confiança, com amigos ou familiares que enviam links de apostas em troca de bônus e comissões sobre as perdas; influenciadores locais, como pessoas do bairro, da igreja ou da cidade, com poucos seguidores, mas alta credibilidade; e grandes influenciadores e publicidade massiva. A pesquisa apurou que 72% das mulheres acreditam que a publicidade das apostas contribui para que as pessoas apostem mais do que deveriam, e 79% afirmam que as redes sociais passaram a mostrar mais conteúdos de apostas depois do primeiro acesso às plataformas. Quem aposta com mais frequência percebe mais esse aumento (82,2%) do que quem aposta raramente (73,2%).
Diante desse cenário, a pesquisa mostra forte apoio à proibição das apostas no Brasil, especialmente entre as mulheres: 62% defendem a proibição dos jogos online no país, contra 50% dos homens. A posição se mantém majoritária independentemente do viés político. “Isso sinaliza aos políticos que existe apetite na opinião pública por medidas de combate às bets”, afirma a coordenadora do estudo. A pesquisa também aponta que 45% dos entrevistados aprovam o bloqueio do Pix em apostas para quem recebe benefícios sociais, e 32% teriam interesse em um canal anônimo de apoio, índice que sobe para 57% entre quem aposta com frequência. Em relação à publicidade, 41% das mulheres concordam que as casas de apostas podem continuar operando, mas devem ser proibidas de fazer propaganda, enquanto entre os homens o percentual é de 47%.
A conclusão do estudo traz diretrizes em três eixos de combate às bets: fortalecer mecanismos da saúde pública para cuidar de apostadores e familiares impactados; prevenir que mais pessoas comecem a apostar, com restrições à publicidade; e, gradualmente, restringir as modalidades de aposta, começando pelos cassinos online.
A pesquisa foi realizada a partir de estudos qualitativos e quantitativos em junho e agosto de 2026. As entrevistas qualitativas ouviram 60 pessoas, sobretudo mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E, residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe. Na enquete quantitativa, foram ouvidos 2.008 homens e mulheres em todo o país, de acordo com a distribuição da população do Censo demográfico de 2022 e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2025, ambos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Fonte: Agência Brasil.

