
O consumo crônico de álcool e tabaco pode provocar um colapso na produção de energia das células responsáveis pela visão, causando danos graves e até cegueira. O alerta consta do panorama inédito sobre neuro-oftalmologia reunido no livro Neuro-Oftalmologia, lançado durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, em Salvador.
A obra foi organizada pelos oftalmologistas Eric Pinheiro de Andrade, Leonardo Provetti Cunha e Mário Luiz Monteiro e aborda desde a base anatômica até as doenças mais complexas da subespecialidade, que une oftalmologia e neurologia para diagnosticar e tratar problemas visuais causados por doenças no sistema nervoso. O lançamento ocorreu em 12 de setembro de 2026.
Segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o olho é a única parte do corpo que permite ao médico enxergar, sem instrumentos ou procedimentos invasivos, o que se passa no sistema nervoso central. O canal que torna isso possível é o nervo óptico, uma extensão direta do cérebro. A entidade classifica a neuro-oftalmologia como área fundamental na investigação de alterações visuais que podem ter origem no cérebro, nos nervos ópticos ou em outras estruturas do sistema nervoso, já que uma queixa visual pode ser o primeiro sinal de doenças neurológicas importantes e potencialmente tratáveis.
Entre as condições diagnosticadas pela subespecialidade estão neurites ópticas associadas à esclerose múltipla, infarto do nervo óptico, compressões causadas por tumores de hipófise e aneurismas, papiledema (inchaço provocado pela pressão alta dentro do crânio) e paralisias que causam visão dupla. O grupo inclui ainda as neuropatias tóxicas, carenciais e hereditárias, no qual se enquadram os efeitos do consumo abusivo de álcool e tabaco e das intoxicações por metanol.
No caso do metanol, segundo o CBO, a ingestão normalmente ocorre por meio de bebidas adulteradas e provoca consequências ao longo do trajeto que liga a retina ao córtex cerebral, levando ao adoecimento e à perda de visão. Os sintomas costumam se manifestar entre seis e 24 horas após o consumo e incluem visão turva, fotofobia, pupilas dilatadas e perda de visão de cores. O quadro pode evoluir para cegueira irreversível, convulsões e coma.
Nas neuropatias ópticas tóxicas e carenciais, como no uso crônico do álcool e do tabaco, a perda visual é lenta, indolor e atinge os dois olhos simultaneamente, o que retarda a percepção do paciente. As pessoas acometidas relatam o surgimento de um borrão no campo central da visão, enquanto a visão periférica permanece preservada. Outra alteração é que as cores desbotam, e o vermelho assume um aspecto de rosa lavado.
A entidade orienta que casos de perda súbita de qualidade da visão, visão dupla que desaparece ao se cobrir apenas um dos olhos, pálpebra caída que piora ao longo do dia, dores ao movimentar o globo ocular e dores de cabeça persistentes com escurecimentos da visão ao levantar-se requerem avaliação médica especializada rápida.
De acordo com o CBO, o exame mais poderoso e subestimado da neuro-oftalmologia é a anamnese, uma conversa simples entre médico e paciente que, se bem conduzida, leva ao diagnóstico correto em 90% dos casos. Restrições alimentares, cirurgia bariátrica prévia, uso de medicamentos tóxicos, histórico familiar e padrão de consumo de álcool e tabaco entram nessa investigação. Na sequência vêm exames clínicos, como avaliação de pupilas, visão das cores, campo visual, movimentos oculares e fundo do olho, e exames complementares, como a tomografia de coerência óptica (OCT), que mede a espessura das fibras nervosas em micrômetros e detecta a perda antes que o paciente a perceba, além de ressonância magnética, dosagem de vitamina B12 e testes eletrofisiológicos da visão.
Nas neuropatias tóxicas, a conduta é a suspensão imediata do agente, seja medicamento, álcool ou tabaco. Nas carenciais, a recomendação é a reposição rápida de vitaminas. Em caso de intoxicação aguda por metanol, o tratamento é de emergência e envolve antídotos, correção da acidose e até diálise que, se iniciada a tempo, pode preservar a visão. Para o restante do espectro de doenças neurológicas que afetam a visão, os tratamentos vão desde a administração de corticoide em altas doses e plasmaférese nas neurites até radioterapia, cirurgia e terapias-alvo nas compressões tumorais.
Fonte: Agência Brasil.
