
Manifestações em várias capitais brasileiras marcaram o fim de semana de encerramento do Julho das Pretas, agenda de mobilizações contra o racismo e em defesa dos direitos das mulheres negras. O mês foi escolhido por abrigar o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana, celebrado no sábado (25). Em todas as cidades, duas pautas centrais nortearam os atos: a reparação pelas responsabilidades históricas do Estado e da sociedade na desigualdade racial, e o Bem Viver, modelo de sociedade que valoriza o cuidado, a ancestralidade e a coletividade, com o objetivo de alcançar justiça social e preservação da vida.
A abertura da programação ocorreu na sexta-feira (24), em Recife, com a Marcha das Mulheres Negras de Pernambuco. As participantes se concentraram no parque Treze de Maio e caminharam até o Pátio do Carmo, denunciando a sub-representação das mulheres negras nos espaços de poder. O ato pernambucano deu o tom das reivindicações que se repetiriam nos dias seguintes.
No sábado (25), data central do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana, ao menos três capitais realizaram marchas. Em Belo Horizonte, as manifestantes homenagearam os 12 anos de fundação da Associação de Trabalhadoras Domésticas Tereza de Benguela, entidade que atua na capital mineira em defesa da categoria, composta majoritariamente por mulheres negras. A associação foi lembrada como símbolo de resistência e organização.
Em Belém, a 11ª edição da Marcha das Mulheres Negras percorreu o entorno da Praça da República, no Centro. De acordo com Flávia Vieira, uma das organizadoras, a escolha do local não foi aleatória: parte da praça foi erguida sobre um cemitério de pessoas escravizadas. A conexão entre passado e presente também se refletiu no tema da marcha deste ano na capital paraense: “Ancestralidade, um projeto de futuro que se faz agora”. Flávia destacou que o tema convida a refletir sobre a importância dos direitos humanos e do voto consciente. “Nós somos o maior grupo político e nós vamos decidir as eleições, então nós precisamos escolher bem as pessoas que vão nos representar”, afirmou.
Em Salvador, a marcha ocorreu no mesmo sábado, organizada pelo Odara – Instituto da Mulher Negra. Beatriz Souza, integrante do instituto, comemorou o aumento da participação a cada edição. “Foi um sábado perfeito, em que nós pudemos estar nas ruas com a força das yabás, pedindo licença para Exu, colocando as nossas crianças na frente da marcha. Foi um momento lindo que nos fez acreditar que é possível sonhar com um novo mundo e, principalmente, construir um novo mundo, com pactos novos de Bem Viver, igualdade e justiça para as pessoas”, disse.
O Odara é o principal articulador das atividades do Julho das Pretas em âmbito nacional. Este ano, ao longo de todo o mês de julho, estão previstas quase 700 atividades, realizadas por mais de 290 coletivos em 23 estados brasileiros e no Distrito Federal. A programação inclui rodas de conversa, oficinas, feiras culturais e outras ações voltadas para a visibilidade e o fortalecimento das mulheres negras.
As marchas deste fim de semana reforçaram a pauta da reparação histórica, que inclui políticas de combate ao racismo estrutural e ações afirmativas. O conceito de Bem Viver, presente nos discursos das organizadoras, propõe um modelo alternativo de sociedade baseado na harmonia com a natureza, na valorização dos saberes ancestrais e na coletividade, em contraposição ao individualismo e à exploração.
A mobilização nacional ocorre em um ano eleitoral, e as lideranças do movimento destacaram a importância do voto das mulheres negras como ferramenta de transformação política. A sub-representação nos espaços de poder foi um dos principais pontos de crítica levantados durante os atos.
Com a agenda do Julho das Pretas, as mulheres negras buscam não apenas denunciar as desigualdades, mas também construir alternativas concretas para um futuro mais justo. As atividades seguem até o fim do mês, com eventos espalhados por todas as regiões do país.
Fonte: Agência Brasil.
